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NOTÍCIAS DE ARQUEOLOGIA

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Sexta-feira, 14.09.07

Arqueólogos esclarecem mistérios da Torre de Odeceixe

Durante séculos esteve esquecida e escondida entre estevas. Este ano, a primeira campanha arqueológica permitiu algumas conclusões. Um dos jovens estudantes de arqueologia passa carregando dois baldes de terra. Com cuidado, equilibrando-se para não escorregar, desce o cerro para despejar a terra num monte, mais abaixo.


Foto



«Temos tirado muita terra daqui, porque, apesar de já se ver bem a estrutura dos muros, há aqui muitos derrubes», explica a arqueóloga Rosa Varela Gomes ao «barlavento».
O local onde os trabalhos arqueológicos decorrem, ao longo de nove dias de Agosto, é o sítio da Torre, um monte cónico sobranceiro ao vale da Ribeira de Seixe, no concelho de Aljezur, uma zona de “fronteira” entre o Algarve e o Alentejo.
No cimo desse cerro, a primeira campanha sistemática de escavações arqueológicas permitiu este ano identificar claramente os restos de uma antiga torre de atalaia circular, composta por um anel de grossos muros de xisto, rebocados a argamassa, com um outro semi-círculo de muros encostado.
Rosa Varela Gomes, uma das arqueólogas responsáveis pela intervenção, já não tem dúvidas de que a torre remonta aos tempos islâmicos, aos séculos XII e XIII, quando as tropas dos reis cristãos de Portugal se aproximavam perigosamente daquele que foi o último reduto dos «mouros» no território hoje português, o Algarve. Esta foi, de facto, «a última grande fronteira do Garb» islâmico, acrescenta.
«Esta torre islâmica controlava esta importante ligação entre o Baixo Alentejo e o Algarve», explicou Rosa Varela Gomes ao «barlavento».
Para mais, acrescentou, nessa época, a ribeira de Seixe era navegável até àquela zona, situada a cerca de três quilómetros da foz, na Praia de Odeceixe. «Esta torre só se justificava num sistema defensivo que se relacionava com a aproximação dos cristãos», acrescenta a arqueóloga.
A provar que a morfologia da zona seria bem diferente há 800 anos, está o facto de ali quase aos pés da Torre existir um local chamado Porto da Torre, que seria um antigo atravessamento da ribeira, nessa altura bem mais profunda.
Do alto do cerro, junto ao que resta dos muros da secular atalaia, avista-se o vale da ribeira de Seixe, de um lado, mas também a Fóia, o ponto mais alto da Serra de Monchique, do outro.
Rosa Varela Gomes considera mesmo a hipótese de esta torre ter estado ligada a outras semelhantes, que se avistavam umas às outras, e assim mantinham a segurança da fronteira natural entre o Baixo Alentejo e o Algarve, formada pelas serras.
Apesar de todas as suas precauções defensivas, estes redutos dos guerreiros islâmicos acabaram por ser tomados pelos cristãos.

Depois dos mouros, os cavaleiros de Santiago?
Rosa Varela Gomes acredita que a torre, pela sua situação estratégica, continuou a ser utilizada em Época Medieval cristã, para controlar precisamente a passagem naquela zona. Depois dos mouros, ao que tudo indica, a Torre de Odeceixe poderá ter sido utilizada pelos cavaleiros da Ordem de Santiago, a quem aquelas terras foram doadas pela coroa portuguesa.
Prova de que a torre continuou a ser ponto importante nos tempos medievais portugueses parece ser uma petição dos mercadores algarvios datada de 1398, que solicitavam a D. João I dispensa de pagarem portagem, duas vezes, quando se deslocavam à feira de Garvão, no Baixo Alentejo. Uma das portagens poderia ser paga precisamente na Torre de Odeceixe.
Rosa Varela Gomes, que, há dois anos, quando visitou o local pela primeira vez, tinha colocado a hipótese de a atalaia ter sido utilizada até à época Moderna, ou seja, pelo menos até ao século XVI, considera agora que tal não aconteceu, pelo menos não surgiram quaisquer evidências disso.
«Temos recolhido poucos materiais, na sua maioria são apenas telhas islâmicas e uma panela do século XII, que poderia ter sido utilizada tanto por muçulmanos como por cristãos. Mas não surgiu nada de épocas posteriores». Por isso, a torre deverá ter sido abandonada no fim da época medieval, talvez por deixar de ter interesse estratégico.
«Em Portugal não conheço nada igual a esta torre, com uma atalaia e uma zona de habitação adossada», garante Rosa Varela Gomes. O que desperta a atenção dos investigadores é o facto de a torre central ser circundada, pelo menos num dos lados, por um recinto fortificado, contendo diversos compartimentos no seu interior.
Presume-se que esses compartimentos serviriam para habitação da guarnição islâmica da torre e até, quem sabe, de familiares desses soldados. Algo que nunca foi encontrado noutro local, nem sequer em Espanha, onde já foram investigadas torres semelhantes.
«Em Espanha há exemplos de torres em que os familiares do guerreiros se instalavam na zona, mas em povoados separados, ao contrário do que parece acontecer aqui».
Em nove dias de campanha, parte dos quais a lutar contra a terra, o pó, o vento e as toneladas de pedra derrubadas, a equipa de arqueólogos e estudantes de arqueologia pouco mais conseguiu que delimitar o perímetro da estrutura e colocar à vista os fortes muros.
«Ainda há muito trabalho para fazer. Por exemplo, nestes compartimentos, ainda não encontrámos as portas de entrada, pelo que presumimos que devemos estar a escavar a um nível muito alto. As portas devem estar ainda lá debaixo», esclarece Rosa Varela Gomes.
Uma das suas preocupações, até ao nível da segurança dos jovens estudantes que ali trabalham, é que aquela torre «deveria ter uma cisterna», para garantir o abastecimento de água à guarnição.
E a cisterna poderá lá estar ainda, quem sabe se intacta. «Temos que trabalhar com cuidado, para não haver nenhuma surpresa desagradável», garante a arqueóloga.


In: Elisabete Rodrigues (26 Ago 2007). Barlavento, on line: http://www.barlavento.online.pt/index.php/noticia?id=17626

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