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NOTÍCIAS DE ARQUEOLOGIA

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Sexta-feira, 14.09.07

Tesouros arqueológicos na Ria de Aveiro

Desde meados da década de 90 que a arqueologia subaquática revela ao mundo preciosidades embaladas pela ria de Aveiro


"A recente divulgação dos resultados das datações dos restos de uma embarcação afundada na ria de Aveiro, pelo radiocarbono, e que a situam na primeira metade do século XV, veio comprovar que esta representa uma das mais extraordinárias descobertas de sempre, no quadro da arqueologia naval e subaquática, não só portuguesa como também mundial".


Estávamos em 1994 e era desta forma, épico-entusiasta, que o arqueólogo Francisco Alves (ver entrevista na página 8), presidente da direcção da associação Arqueonáutica – Centro de Estudos, iniciava o texto de apresentação do projecto de salvamento arqueológico dos restos da embarcação então baptizada de ‘Aveiro A’, na ria de Aveiro. Era um dos apitos iniciais de um sem número de horas que uma equipa composta por mergulhadores, arqueólogos e investigadores empreendeu debaixo de água para resgatar da profundidade a ‘lixeira histórica’ que o tempo serenou sem apagar.


Um avistamento fortuito dá o mote dois anos antes. Em 1992, o residente Carlos Neves Graça encontra algo nas imediações da ponte da Barra, no canal de Mira (Ílhavo). Em 1993, descobre-se outra jazida, desta feita no canal principal da ria, entre o Clube Naval e a Lota (Aveiro).


O primeiro dos achados iria designar-se por ‘Ria de Aveiro A’. Consistia no resto de um casco de uma embarcação envolto por um vasto conjunto de louças "de fabrico comum de feição regional, muitas das quais perfeitamente intactas", com datação que apontava para a primeira metade do século XV. O segundo, conhecido como ‘Ria de Aveiro B’, concentrava vários objectos dispersos, sobretudo peças de cerâmica de produção local, "presumivelmente datáveis entre os séculos XV e XVII".




Relíquias submersas


O trabalho em torno da Ria de Aveiro B dá frutos. Em apenas dois dias de prospecção, foram logo recolhidas e inventariadas 97 peças, muitas delas inteiras. Um dos achadores observa um conjunto de vasos cónicos, conhecidos como "formas de pão de açúcar", usados no fabrico e purga do melaço.


Encontrou-se de tudo, desde bilhas a malgas, pratos, testos e tachos, tendo sido avistada também uma estrutura de madeira a sair do lodo, em forma de proa, cuja significância se enche de curiosidade, quando considerada a coincidência da referência micro-toponímia de "Gran Caravela", constante da cartografia cadastral da zona.


Na comunicação de Francisco Alves integrada no II Simpósio de História Marítima, pode ler-se que o espólio da ‘Ria de Aveiro B’ permitia considerá-la, em 1994, como "a maior e mais expressiva colecção de cerâmica comum da época dos Descobrimentos e da expansão marítima".




Em busca da ‘Ria de Aveiro A’


Localizada a estrutura avistada em 1992, os exploradores partiram em busca dos tesouros da Ria de Aveiro A. Como explica Miguel Aleluia, um dos mergulhadores envolvidos nas escavações, de todos os achados, foi o que mais "chamou a atenção da comunidade científica".


O motivo era simples. Não havia um conhecimento aprofundado em relação aos barcos do período das Descobertas e à sua construção. A amostragem de exemplares encontrados, dessa época, escasseia.


A estrutura era coberta por tabuado e há a ideia de que o barco faria "viagens até Lisboa e pelo Norte da nossa costa". Apesar de não podermos dizer que é uma caravela, é, de todos os achados, o que "de longe o que se aproxima mais" da noção dominante de caravela, completa Miguel Aleluia.


Já há inclusivamente uma projecção de como seria o barco em 80/90 por cento, em função do que foi descoberto (cerca de 70 por cento do seu comprimento total, que ronda os 17 metros).


A maior parte dos objectos recolhidos no ‘Ria de Aveiro A’ era cerâmica (tigelas, pratos, terrinas, alguidares, testos, púcaros, canecas, potes, bilhas, etc), mas também se recolheu fruta (nozes, castanhas, uvas), restos de tecidos e amostras de fibras vegetais.




Processo de trabalho


Nos primeiros meses de escavações no ‘Ria de Aveiro A’, a equipa trabalhava "uma média de 14 horas por dia, sete dias por semana". A ausência de ondulação ajudava, mas era preciso ultrapassar uma série de condicionantes, começando pela possibilidade de os objectos serem levados pela corrente, passando pela fragilidade dos itens e temperatura da água e terminando no jogo de espera a que a oscilação das correntes obrigava.


As peças eram identificadas debaixo de água, depois retiradas e colocadas em água doce para se proceder a uma dessalinização. Quando já não há sais, inicia-se "um processo de secagem lento", elucida Miguel Aleluia.


A identificação da riqueza patromonial de novas zonas atinge, nos dias de hoje, o ‘Aveiro H’. Pelas mãos dos pesquisadores já passaram milhares de objectos, desde apitos náuticos até a vestígios de navios de construção trincada (estilo viking).  


 


Pólo museológico à espera do QREN


 A ideia já é antiga mas ausência de fundos tem adiado a sua passagem da abstracção teórica à realidade. Seria concebível uma unidade museológica que albergasse o vasto conjunto de achados que entretanto foram sendo conhecidos?


Seria. É o próprio Francisco Alves, director do projecto que aflorou o ‘Aveiro A’, quem o admite: “Tanto em Aveiro como em Ílhavo temos achados absolutamente significativos para serem um ponto de partida para um discurso museulógico”.


Pedro José Barros (30 Ago 2007). O Aveiro: http://www.oaveiro.pt/index.php?lop=conteudo&op=70c639df5e30bdee440e4cdf599fec2b&id=78ade5b560946211ce63652717b37aea&drops[drop_edicao]=75

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por noticiasdearqueologia às 22:11


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