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NOTÍCIAS DE ARQUEOLOGIA

O Património é um bem comum... Preservá-lo só depende de cada um de nós...


Domingo, 03.04.16

A descoberta por satélite que pode reescrever a história dos víquingues

As provas acumulam-se: os navegadores nórdicos já se tinham instalado na América do Norte séculos antes de Colombo chegar É uma pequena península remota na região canadiana da Terra Nova, e poderá ajudar a reescrever a história dos víquingues como ela tem sido contada. Tudo graças à conjunção curiosa da tecnologia de imagens de satélite e da tradição histórica das sagas nórdicas, que levaram um grupo de arqueólogos à península de Point Rosée. A investigadora Sarah Parcak especializa-se em arqueologia com a ajuda de imagens de satélite, e foi ela que descobriu, no ano passado, indícios de atividade humana nesta península longínqua no Canadá, segundo conta a revista National Geographic. Em junho de 2015, após análise dessas imagens, Parcak e uma pequena equipa de arqueólogos chegavam a Point Rosée e descobriam um forno de pedra para trabalhar ferro - a primeira indicação de que o território poderia ter sido colonizado pelos víquingues, navegadores do norte da Europa que já se sabia terem chegado ao Novo Mundo muito antes de Cristóvão Colombo, por volta do século X. Se se confirmar que Point Rosée era o local de um acampamento ou mesmo de uma povoação víquingue, não será o primeiro local arqueológico víquingue na América do Norte. O primeiro e, para já, único é em L'Anse Aux Meadows, na ponta mais a norte da Terra Nova, onde foi descoberto, em 1960, um acampamento nórdico que foi abandonado pouco depois de ter sido criado, no século X. Espada viking com 1200 anos encontrada por acaso num passeio A descoberta de L'Anse Aux Meadows confirmou as antigas sagas nórdicas que falavam de uma colonização breve e falhada da América do Norte. "Mas é apenas um lugar", disse à National Geographic o arqueólogo Douglas Bolender. Point Rosée poderá corroborar essas histórias ou, se a datação for muito diferente da do acampamento de L'Anse Aux Meadows, poderá reescrever totalmente a forma como se pensa atualmente a colonização víquingue da América do Norte. Ainda não existem provas suficientes de que Point Rosée seja um local de colonização víquingue. Outros povos que viviam na Terra Nova há centenas de anos também poderiam ter construído o forno de ferro, desde os povos nativos da região até aos pescadores bascos que também lá chegaram. Mas existem razões para serem otimistas, dadas as condições que seriam propícias para um acampamento víquingue na zona: o mar com zonas sem pedras adequadas para ancorar navios, o solo bom para a agricultura, e a presença de recursos naturais. O mais importante desses recursos para a hipótese de se tratar de um acampamento do povo nórdico é a presença de ferro em pântanos, essencial para o modo de vida víquingue, porque os víquingues não eram um povo mineiro, recolhendo o seu ferro deste tipo de acumulação.

Fonte: 01.04.2016:http://www.dn.pt/sociedade/interior/a-descoberta-por-satelite-que-pode-reescrever-a-historia-dos-viquingues-5105065.html

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por noticiasdearqueologia às 16:57

Sexta-feira, 18.03.16

Gravuras rupestres colocaram Foz Côa no mapa mundial da arqueologia

 A descoberta das gravuras rupestres do Vale do Côa, na primeira metade da década de 1990, colocou o concelho de Vila Nova de Foz Côa no roteiro mundial da arqueologia, quando até aí dependia exclusivamente do turismo vínico.

A decisão governamental de não construir a barragem do Baixo Côa, em 1995, e a classificação dos sítios rupestres como Património Mundial da Unesco, em finais de 1998, mudaram o rumo não só de Vila Nova de Foz Côa, no norte do distrito da Guarda, mas de todo o vale do rio.

A primeira grande mudança foi de âmbito global e centrou-se na investigação e no conhecimento. Os arqueólogos no Côa revelaram um amplo centro de arte rupestre paleolítica de ar livre, algo até então praticamente desconhecido, dado a maioria das descobertas até então ter ocorrido em grutas.

Esta descoberta colocou "nas bocas" da comunidade científica o que passou a ser considerado como um dos mais importantes achados arqueológicos de sempre de gravuras do paleolítico superior.

A história tornou-se rapidamente muito mediática, porque assentava num problema de escolha: ou se construía um grande empreendimento hidroelétrico ou se salvavam os testemunhos de arte rupestre cuja importância arqueológica e grande antiguidade foram desde muito cedo reconhecidos.

"Uma história de paixões que, ao longo de todo o ano de 1995 alimentou muitas primeiras páginas e dividiu as opiniões dos portugueses", destaca o arqueólogo António Martinho Batista, um dos pioneiros da descoberta.

A internacionalização do "caso Côa", apoiada em movimentos de cidadãos, contribuiu decisivamente para o arrastar do problema até às eleições de outubro de 1995, tendo o caso sido uma bandeira política do Partido Socialista, que acabaria vencedor.

O quotidiano da pacata vila viveu por estes tempos momentos fortes, nomeadamente quando o então Presidente da República, Mário Soares, visitou o local, acompanhado de jovens que gritavam "As gravuras não sabem nadar!", glosando uma música então em voga dos Black Company.

Quem recorda esses tempos é o então ministro da Cultura do Governo socialista, Manuel Maria Carrilho.

"A questão das gravuras estava em debate nacional. Era um tema nacional, político", indica o ex-governante, acrescentando que foi "uma grande luta".

"Não tinha ficado no Governo um dia sequer se isto não se mantivesse. A preservação das gravuras foi, aliás, uma promessa eleitoral", lembra.

Agora, Carrilho pede ao primeiro-ministro, António Costa, e ao ministro da Cultura, João Soares, para que se "acorde para o valor absolutamente único que existe em Foz Côa e para o potencial de toda aquela zona do interior".

"O passado acabaria por ditar o futuro, com a criação do Parque Arqueológico e um centro de estudos de arte rupestre, que seriam os alicerces do Museu do Côa, inaugurados em 31 de julho de 2010", lembra António Martinho Batista.

As gravuras do Côa e agora também o Museu do Côa, terão atraído à região quase um milhão de visitantes nos últimos 20 anos.

Alexandra Cerveira Lima, uma das arqueólogas do Vale do Côa, sublinha que os cientistas "revelaram ao mundo a dimensão da arte rupestre paleolítica de ar livre, até então desconhecida. O Côa é um repositório de informação, um imenso registo arqueológico conservado".

Por sua vez, o presidente da Câmara de Vila Nova de Foz Côa, Gustavo Duarte, diz que muito mais poderia ter mudado no concelho com a descoberta das gravuras rupestres.

"Como se disse na altura, queremos que o Museu do Côa e o parque arqueológico contribuam para o desenvolvimento do Vale do Côa", frisa, apontando mudanças no afluxo turístico a Foz Côa, mas referindo que há potencial para mais, já que houve, entretanto, uma melhoria significativa na rede viária.

"Queremos fazer deste património uma componente agressiva para o turismo no território", assegura.

Fonte: 08.03.2016: http://www.dnoticias.pt/actualidade/pais/573301-gravuras-rupestres-colocaram-foz-coa-no-mapa-mundial-da-arqueologia

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por noticiasdearqueologia às 11:06

Sexta-feira, 18.03.16

Hidden Chambers Discovered in King Tutankhamun’s Tomb by Scans

 

Hirokatsu Watanabe, Mamdouh Eldamaty, the Egyptian antiquities minister, and archaeologists Nicholas Reeves and Yumiko Ueno study an image of a painted wall scene. PHOTO: Brando Quilici, National Geographic

Hirokatsu Watanabe, Mamdouh Eldamaty, the Egyptian antiquities minister, and archaeologists Nicholas Reeves and Yumiko Ueno study an image of a painted wall scene. PHOTO: Brando Quilici, National Geographic

Egypt’s Ministry of Antiquities announced on Thursday that two previously un-discovered chambers were revealed by scans of King Tutankhamun’s tomb.

In a press conference, the Ministry said that the two chambers, on the North and Eastern walls of the tomb, contain either metal or organic material, as according to scans carried out by Japanese radar specialist Hirokatsu Watanabu.

New scans will be conducted later this month to determine the exact dimensions of the chambers, said the Ministry.

The revelations come months after Egypt’s Minister of Antiquities said there was a 90 percent chance that a  hidden chamber lies behind King Tutankhamun’s tomb in the Valley of the Kings.

 

The latest findings, which lend credence to British archaeologist Nicholas Reeves’ theory that Queen Nefertiti’s tomb is hidden behind that of King Tutankhamun, may lead to “one of the most important finds of the century,” the Minister said in November 2015.

Not only was Nefertiti famous for her beauty, which remains evident through her world-renowned 3,300-year-old painted limestone bust housed at the Egyptian Museum in Berlin, but she was also the Great Royal Wife of the Pharaoh Akhenaten and his chief consort.

Nefertiti’s burial site has long been a mystery as archaeologists have so far failed to find the queen’s tomb.

King Tutankhamun’s tomb was found in 1922 under the supervision of another British archaeologist and Egyptologist, Howard Carter.

Fonte: 16.03.2016: http://egyptianstreets.com/2016/03/17/hidden-chambers-discovered-by-scans-in-king-tutankhamuns-tomb/

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por noticiasdearqueologia às 11:01

Quarta-feira, 03.02.16

Resolvido "um dos maiores mistérios" da antiga Jerusalém

Há mais de um século que o local exato de Acra intrigava os arqueólogos

Especialistas israelitas anunciaram esta terça-feira ter resolvido "um dos maiores mistérios arqueológicos de Jerusalém" ao descobrirem uma antiga cidadela grega, Acra, debaixo de um parque de estacionamento.

Há mais de um século que o local exato de Acra intrigava os arqueólogos. A fortaleza foi mandada construir pelo imperador selêucida Antíoco IV Epifânio (215-164 aC) para controlar Jerusalém e o seu antigo templo judeu.

O templo foi arrasado pelos romanos no ano 70 (dC) e no local foram construídos, séculos depois, dois locais sagrados para os muçulmanos, o Domo da Rocha e a mesquita Al-Aqsa (na chamada Esplanada das Mesquitas).

O local é conhecido pelos muçulmanos como o Nobre Santuário e pelos judeus como Monte do Templo e é sagrado para ambos, sendo hoje um local de conflitos frequentes.

"Os investigadores, com a Autoridade de Antiguidades de Israel, acreditam que encontraram os restos da fortaleza... nas escavações do parque de estacionamento Givati na Cidade de David", referem as autoridades, numa referência a um local arqueológico situado no bairro palestiniano de Silwan, na Jerusalém oriental ocupada (reivindicada pela Autoridade Nacional Palestiniana)

"As escavações em Givati continuam a descobrir numerosos artefactos de mais de 10 culturas antigas diferentes da história de Jerusalém", acrescentou a fonte.

A cidadela é mencionada tanto no Livro dos Macabeus (sobre as lutas contra os soberanos selêucidas) como nos escritos do historiador Flávio Josefo, no século primeiro antes de Cristo, mas a sua localização exata não era conhecida até hoje.

As escavações permitiram descobrir uma parte do muro da cidadela e uma base de uma torre de "dimensões impressionantes", disseram as autoridades, acrescentando que a descoberta vai permitir reconstruir o "layout" (plano) da cidade, como era há dois mil anos.

As defesas da fortificação resistiram a todas as tentativas para a conquistar até que foi tomada pelo líder judeu Simão Macabeu, no ano 141 (aC), após um longo cerco que deixou a guarnição grega sem comida.

Antíoco é lembrado na tradição judaica como o vilão do feriado de Hanukkah (festa judaica também conhecida como festival das luzes), que por ter banido ritos religiosos judeus levou à revolta dos macabeus.

Fonte: (03-11-2015): http://www.dn.pt/sociedade/interior/resolvido-um-dos-maiores-misterios-de-jerusalem-4868793.html

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por noticiasdearqueologia às 08:58

Quarta-feira, 03.02.16

Tesouros da arqueologia são encontrados na região da Leopoldina

Foto: Divulgação/Governo do Rio

Em 2013, cerca de 220 mil artefatos foram encontrados pela equipe de arqueologia contratada pelo Consórcio Linha 4 Sul, localizado na Leopoldina, no Centro do Rio de Janeiro. No local, hoje estão estocadas as aduelas, anéis de concreto que formam os túneis entre Ipanema e Gávea.

O material ficou armazenado em dois depósitos grandes. Todos os dias, os sacos são abertos, os objetos passam por triagem, são limpos e colocados para secar. Estando em pedaços são consolidados em peças inteiras ou o mais próximo disso. Depois, os artefatos são tombados (registrados) e identificados de acordo com o artefato e o estilo.

 

Peças de 3 mil anos

Deste trabalho, foram identificados cerca de 50 artefatos de pedra e mais de 700 conchas características da Pré-História. São peças de 3 a 4 mil anos atrás, do período quando os paleoindios, que circulavam pelas terras ao redor da Baía de Guanabara, eram caçadores-pescadores, coletores e nômades.

Todo o trabalho é coordenado pelo Governo do Estado e o Consórcio Linha 4 Sul, e tem a fiscalização federal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e municipal do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

Fonte: 26-01-2016: http://www.mancheteonline.com.br/tesouros-da-arqueologia-sao-encontrados-na-regiao-da-leopoldina/

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por noticiasdearqueologia às 08:56

Quarta-feira, 03.02.16

Crónicas do castelo de S. JORGE

Um dia, a terra tremeu em Lisboa. Igrejas foram rasgadas ao meio, fornos foram destruídos e a morte lavrou na cidade. 

Numa parede do castelo, ficou escondida a memória de uma notícia funesta pelo traço de um escrivão.

O MRM permitiu ao especialista Bernardo Sá Nogueira retirar dúvidas na leitura da inscrição principal, interrompida nas duas primeiras linhas pela fragmentação do reboco.

Por defeito ou feitio, a maior parte dos arqueólogos costuma caminhar com os olhos postos no chão, como se procurasse ininterruptamente vestígios sugestivos de outras ocupações do território. Num dia do Verão passado, sucedeu o inverso a Carlos Fabião. Durante uma visita de lazer ao Castelo de São Jorge, o arqueólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa detectou a partir do solo a sugestão de uma inscrição na parede da Torre do Paço, a cerca de quatro metros de altura.

De um certo ângulo e com uma certa exposição luminosa, procurou tirar a questão a limpo, não fosse a luz solar pregar-lhe uma ilusão óptica. Fabião conhecia bem este espaço. Cresceu na mesma freguesia onde o castelo está implantado e passou parte da infância a explorar os cantos e recantos do monumento, fugindo dos legionários que então zelavam pelo castelo e que impediam a visita de crianças não acompanhadas. “Cheguei a sair daqui literalmente transportado pela orelha”, brinca. Mesmo assim, não assimilou de imediato a importância do achado. “Imaginei que, se fosse uma inscrição, já teria sido detectada, estudada e eventualmente publicada em artigo que eu não conhecesse”, conta. No entanto, quanto mais pesquisava, mais perplexo ficava: ninguém parecia ter reparado num texto gravado numa parede do monumento mais visitado do país, embora outro edifício tenha estado ali adossado durante alguns séculos, tapando a inscrição.

Alertada a unidade de Património Cultural do Castelo, coordenada por Susana Serra, a novidade foi acolhida com entusiasmo. “Não é todos os dias que se descobre uma novidade num monumento com ocupação continuada desde a Idade do Ferro”, diz a historiadora. Em breve, um andaime foi montado e encostado à parede, permitindo aos investigadores encostarem literalmente os olhos ao texto. E as surpresas não cessaram: a inscrição ocupava um espaço considerável de cerca de quatro metros de largura. Incluía símbolos e caracteres, bem como a sugestão de três brasões. Agregava símbolos fálicos e possíveis sinais de tabelião em forma de estrela. E texto, claro. Cuidadosamente gravadas a estilete numa camada de reboco, as linhas de texto apresentavam-se como uma mensagem da Idade Média. Faltava, porém, quem a conseguisse ler e interpretar. Afinal, o que nos diziam os ocupantes do castelo do século XIV?

“Tenham respeito pelos escrivães”, brinca o meu interlocutor enquanto subimos o andaime num dia gloriosamente límpido de Novembro. “Eles pertenciam à elite da sociedade lisboeta dos séculos XII a XV.” Bernardo Sá Nogueira, o autor destas palavras, é um especialista em paleografia portuguesa e história administrativa medieval em Portugal. Quando fala, imprime tanta vivacidade gestual e linguística ao que transmite que, por momentos, somos levados a pensar que a vida de um tabelião ou escrivão do século XIV era de facto repleta de aventuras.

Bernardo Sá Nogueira foi o especialista contactado pelo Castelo de São Jorge para tentar ler as inscrições. Habituado a descodificar manuscritos medievais, escreveu uma dissertação de mestrado sobre um tabelião que trabalhara em Lisboa entre 1302 e 1332 e uma tese de doutoramento sobre as origens do tabelionado no país. Era claramente o homem certo na altura certa. 

Com a presteza de um especialista em criptografia, procurou isolar letras que se destacassem na inscrição principal. Identificou os signos correspondentes ao ano “noventa e quatro” logo na primeira linha, uma pista importante para definir o intervalo provável de tempo para a produção da inscrição. “Portugal foi o último reino ibérico que abandonou o sistema de contagem dos anos conhecido como ‘era hispânica’ e só o fez em 1422”, explica. Durante muitos anos aceite como contagem a partir da conquista romana da Península Ibérica, sabe-se hoje que data da Alta Idade Média.

 Logo a seguir, os olhos de Bernardo Sá Nogueira identificaram outro conjunto significativo de símbolos, redigidos no cursivo típico da Idade Média portuguesa. Palavra a palavra, mesmo com abreviaturas, o especialista identificou a referência ao dia de São Bartolomeu e a expressão “tremeu a terra”. “Abandonei o local com essa informação a bailar na minha mente e, durante o trajecto de carro para casa, recebi um telefonema entusiasmado de João Almeida [arqueólogo responsável do Serviço Educativo do Castelo de São Jorge].” Lera na Internet que um dos grandes sismos da história lisboeta ocorrera no dia 24 de Agosto de 1356. Precisamente no dia de São Bartolomeu. Não acontece muitas vezes na vida de um historiador, mas desta vez sucedeu: “Assimilei a informação: tínhamos acabado de ler na parede do Castelo de São Jorge a notícia de um terramoto.”

Há cerca de uma década, a historiadora Marisa Costa e o investigador João Fonseca, do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção, apresentaram num congresso de sismologia o resultado de uma análise intensiva às fontes documentais sobre eventos sísmicos no período medieval. A sua pesquisa ganha agora particular actualidade. O evento de 1356 figura, naturalmente, entre os documentos produzidos no século XIV, dando conta de estragos relevantes em Lisboa, Alcobaça, Setúbal, Silves e no resto do Algarve. Sentido numa quarta-feira antes do pôr do Sol, o sismo é referido por exemplo noLivro da Noa, que pertenceu à biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, num trecho dramático: “(…) tremeu a terra e per tal guissa que as ca[m]paas se tangiam nos campanarios de seu e muytas casas e torres e castelos que cayron e se abrirom que ficarom pera cai[r]. Per todalas partes do mundo foy este tremor. E omees que stavam en fortes casas fugiam delas com medo que avian e Esto foy ante que se posesse o Sol durou per spa[ç]o du[m]a quarta d’ora do dia.”

Lemos a passagem do livro medieval e imaginamos o pandemónio na cidade, então concentrada nos bairros históricos em torno do castelo. Um acto lavrado anos depois, em 30 de Maio de 1361, na chancelaria de Dom Pedro I (1357-1367), o rei que sucedeu a Dom Afonso IV, lembra também que os quatro fornos da cidade de Lisboa que coziam pão foram destruídos. Mesmo em Sevilha, as grandes maçãs de bronze do campanário da catedral caíram e partiram-se, o que sugere a escala ibérica do fenómeno e a impressão assustadora que o mesmo gerou nas populações.

 

A capela real que Dom Afonso IV (1325-1357) mandara construir para ali ser sepultado com Dona Beatriz foi rasgada pela violência dos abalos e esse mau augúrio é particularmente sugestivo. O rei estava em fim de trajecto. Depois do sismo, sobreviveu pouco mais de nove meses e foi sepultado na Sé de Lisboa. Bernardo Sá Nogueira entende que esse aspecto não foi suficientemente valorizado pelos historiadores: quase todos os antecessores reais desde Dom Afonso II foram sepultados em mosteiros da Ordem de Cister: Dom Afonso II e Dom Afonso III descansaram em Alcobaça; Dom Sancho II morreu no exílio, sem possibilidade de escolher o local, jazendo na Sé de Toledo. Dom Dinis criou um panteão para si, mandando construir o Mosteiro de Odivelas. E Dom Pedro I, filho de Dom Afonso IV, escolheu também o Mosteiro de Alcobaça. “Só Afonso IV fugiu a esta regra. Terá o sismo influenciado a vontade régia, ao destruir a capela previamente erigida a mando do rei para sua sepultura?”, pergunta Bernardo Sá Nogueira.

 “O grande desafio da equipa que gere o castelo é contrariar a acusação permanente de que não há autenticidade neste monumento”, comenta Teresa Oliveira, responsável pela gestão do monumento desde 2004. “Em 2015, ultrapassámos pela primeira vez a barreira do milhão e meio de visitantes num só ano. Tivemos dias com oito mil visitantes e isso significa que o turista encontra inspiração e prazer no castelo. Ao mesmo tempo, também temos noção de que parte da comunidade académica interpreta este espaço em função da intervenção programática e impositiva da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) na década de 1940. E este castelo, como quase todos os outros, é entendido como um monumento muito ‘mexido’ e com pouco interesse.”

Entre 1938 e 1940, a DGEMN promoveu no Castelo de São Jorge uma intervenção radical de consolidação e interpretação. Augusto Vieira da Silva, um engenheiro militar que dedicou a maior fatia da sua vida profissional ao castelo, resumiu mais tarde o programa de reconstrução em que estivera envolvido, definindo-o como um esforço de restituição “à cidade, consertado e alegre, [d]o seu mais antigo e venerando monumento, evocador de eras passadas e factos ocorridos em Lisboa”. Dentro desse espírito, a DGEMN procedeu a terraplenagens, baixou drasticamente cotas de terreno e destruiu áreas construídas posteriormente à implantação do castelo, perseguindo um ideário nacionalista e romantizado.

 

Para piorar o cenário, a pressão para incluir o castelo no programa das comemorações do oitavo centenário da fundação da nacionalidade acelerou intervenções que deveriam ter sido cuidadosas. “Não há dúvida de que se perdeu um volume gigantesco de informação”, admite Susana Serra, que hoje conhece o castelo palmo a palmo, após onze anos de trabalho no terreno. “Em muitos monumentos, a etapa fundamental para conservação do património é o entendimento das fases de construção. Aqui, infelizmente, é a percepção do que foi destruído. Mas isso não significa que todo o castelo seja produto do século XX.”

Para Carlos Fabião, para lá do mito sobre o “fabrico” do monumento, existiu outro factor dissuasor: há uma obra fundamental de análise do castelo redigida por Vieira da Silva em 1898 e republicada em 1937, antes portanto dos trabalhos de fundo e nunca continuada. “A segunda edição é praticamente a mesma do século XIX. Isso sugere que ninguém olhou para este monumento durante o século XX, como se o estudo tivesse terminado”, resume. “Hoje percebemos o valor histórico de testemunhos como este, até pela sua raridade: em Portugal, só se conhecem inscrições desta natureza no castelo de Arraiolos e mesmo essa descoberta data de 2010.”

No Verão de 2015, Carmen Barceló, catedrática da Universidade de Barcelona, deu um contributo inesperado para o conhecimento do castelo. Uma lápide funerária romana, encontrada em 1939 nas ruínas do castelo árabe e exposta então na Sala Ogival do Castelo e depois no Museu da Cidade de Lisboa, foi agora interpretada. Por baixo do epitáfio romano já lido por epigrafistas portugueses, a investigadora espanhola detectou e leu uma mensagem em árabe sobre o início da alcáçova de Lisboa em época de Hisam II, o último grande califa de Córdova e o líder que ordenara o saque de Santiago de Compostela. Barceló remeteu a data de produção da epígrafe para 985 d.C. Por outras palavras, a inscrição sugere uma importante etapa de construção de época islâmica no castelo anterior em quase um século ao que as escavações de há duas décadas na mesma área tinham proposto. “A ciência faz-se assim”, resume Susana Serra. “Com novos dados e hipóteses. Mas, para isso, é preciso estudar este monumento.”

 

A ocupação e extensão do Paço Real, o castelejo, a Torre do Tombo original onde operavam guardas-mores como Damião de Góis e a torre onde hoje funciona a popular Câmara Escura, que está quase assente em caboucos, constituem focos de pesquisa possível. “As áreas arqueológicas em cotas inferiores ao nível islâmico não foram mexidas pela DGEMN e são igualmente sugestivas”, acrescenta Susana Serra. E há ainda a biblioteca de pedra, o inventário que a equipa de Património Cultural do Castelo tem em curso, com apoio da geóloga Madalena Rodrigues, da conservadora-restauradora Mafalda Alegre e da documentalista Daniela Sebastião, procurando mapear as patologias e os materiais utilizados nas sucessivas fases de construção do monumento. O Laboratório HERCULES, em Évora, ajudou a caracterizar a argamassa, a cal e as areias usadas no reboco das inscrições. “A partir de agora, sempre que encontrarmos materiais semelhantes, podemos deduzir com mais segurança que foram aplicados em época semelhante à da Torre do Paço”, explica Madalena Rodrigues.  O que nos leva de novo às inscrições e àquilo que elas revelam sobre a sociedade do século XIV.

O passo seguinte deste projecto é de natureza tecnológica. Hugo Pires e Luís Bravo, da empresa Superfície, foram convidados a testar no Castelo de São Jorge o seu processo de digitalização tridimensional e imagens de síntese aplicadas a arte rupestre, a epigrafia e agora a suporte paleográfico, um registo diferente, pois a flexibilidade da superfície não garante tanta durabilidade. “O método torna mais seguro o trabalho de interpretação dos especialistas, não é intrusivo e permite analisar o suporte longe do sítio arqueológico”, resume Hugo Pires. É precisamente isso que fazemos hoje em frente de um computador.

Manejando uma caneta digital por cima das imagens de síntese geradas pela equipa da Superfície, Bernardo Sá Nogueira decalca cada signo. Não é propriamente um estilete, mas o especialista em história medieval assegura que não é muito diferente da escrita com a pena. Enquanto decalca com a paciência de Job, emendando e repetindo gestos precipitados, explica as conclusões da sua interpretação. “O autor destas linhas tinha de ser um escrivão habituado a escrever sobre tabuinhas de cera e com muito treino manuscrito”, diz. “Nota-se nas abreviaturas usadas, na fluidez das palavras, nas fórmulas escritas muito próximas das que se usam nos documentos e até na guarda dentro da qual o autor assina e encerra o trabalho.” Os notários (então chamados tabeliães) eram a fina-flor dos escrivães. Estavam juridicamente capacitados para redigir documentos e eram eles que escrituravam as actas dos processos judiciais. “Pense neles como os guardiões da memória escrita numa época em que não havia impressão e os livros eram escassos e escritos à mão”, explica Sá Nogueira. “Eram uma mini Torre do Tombo, uma classe poderosa.” Talvez um dia se descubra, no espólio de documentos medievais, um manuscrito redigido pelo mesmo homem que gravou a estilete a mensagem no castelo, fechando assim o círculo improvável da história.

Em que momento terá sido produzida a inscrição e com que objectivos? Carlos Fabião hesita quando aborda a questão da motivação. “Talvez nunca se saiba.” “Por que motivo alguém escreve uma memória futura na parede? Para lembrar um evento definidor? Para honrar um rei?” Ou para assinalar a conclusão do restauro de uma torre eventualmente sacudida por abalos sísmicos ou por conflito militar? São mistérios insondáveis.

A data de produção, porém, não é tão fugaz. Baseando-se no tipo de letra, Sá Nogueira acredita que ela poderá ter sido produzida no reinado fernandino (1367-1383). Depois do sismo de 1356, Dom Afonso IV já só reinou mais alguns meses. Seguiu-se-lhe Dom Pedro, que tomou em mãos a vingança da morte de Dona Inês de Castro e perseguiu os responsáveis. “Segundo a lenda, ao subir ao trono, Dom Pedro coroou o cadáver da rainha e obrigou a corte a beijar-lhe a mão. Foi um gesto que agitou a imaginação dos portugueses. O seu reinado constituiu um corte radical com a tradição do pai. Não o imagino a patrocinar uma inscrição que honrasse um momento no reinado afonsino.” 

Resta portanto Dom Fernando I. “A caligrafia é compatível”, defende. “E há o pormenor económico: o restauro do castelo danificado representava um enorme esforço financeiro para a Coroa e justifica-se melhor face a um perigo.” Implicaria certamente uma razão forte: “Não a vejo no reinado de Dom Pedro e vejo-a por três vezes no de Dom Fernando com as três guerras com Castela”, diz. 

Há mais símbolos na cartela da Torre do Paço e os trabalhos prosseguem. O Instituto Português de Heráldica já visitou o espaço, através do seu presidente Miguel Seixas, e estuda agora os brasões parciais ali gravados. Talvez outras palavras inscritas ajudem a compreender melhor o sentido e intenção dos homens que, no século XIV, subiram a alguns metros de altura, aproveitaram o reboco fresco e ali deixaram a memória de um evento que certamente marcara a sua vida.

Ao descer do andaime em mais uma visita ao local, Bernardo Sá Nogueira não resiste a lembrar de memória uma passagem escrita por Frei Luís de Sousa nos Anais de El Rei Dom João III, curiosamente também um texto que esteve escondido durante dois séculos até Alexandre Herculano o reabilitar: "São os reis umas paredes brancas em que cada um se atreve a escrever o que quer." Em poucos locais do país, esta frase faria mais sentido do que na Torre do Paço do Castelo de São Jorge.

Fonte: Texto de Gonçalo Pereira: http://www.nationalgeographic.pt/index.php/ng-revista/585-castelo-sao-jorge

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por noticiasdearqueologia às 08:49

Segunda-feira, 01.02.16

Arqueólogos desvendam mistério de vilarejo pré-histórico na Inglaterra

  • Andrew Testa/The New York Times

Ninguém sabe por que um incêndio catastrófico destruiu o pequeno povoado construído ao lado de um canal do rio, incinerando as casas de várias famílias e lançando madeira em chamas pântano abaixo. Pode ter sido um acidente, um ataque de inimigos ou até mesmo algum tipo de ritual.

No entanto, respostas estão surgindo, pedaço por pedaço, cerca de 3 mil anos mais tarde.

O sítio arqueológico Must Farm, em Cambridgeshire, é considerado tão rico que tem sido comparado a Pompeia, a cidade romana enterrada pela erupção do Monte Vesúvio em 79 dC.

Must Farm não se parece com uma ruína pitoresca, muito menos uma fazenda. Ela ocupa um terreno enlameado, com turbinas eólicas e chaminés se erguendo ao longe. E os coletes amarelos fluorescentes usadas pelas pessoas envolvidas na escavação fazem com que ele pareça um canteiro de obras.

Mas seus tesouros chamam atenção. Na terra encharcada, apareceram uma tigela de madeira carbonizada e um vaso de cerâmica na semana passada, perto do esqueleto de uma vaca, presumivelmente abatida para fornecer alimento. A poucos passos de distância, a forma inconfundível de um crânio humano se projetava em meio à lama na qual esteve enterrado desde a Idade do Bronze.

"A analogia com Pompeia, da qual vivem falando, é verdadeira nesse local, mas também é falsa", disse Mark Knight, diretor sítio arqueológico. "Não há nenhum vulcão nesta paisagem; este não foi um desastre natural. Mas um acontecimento, como um grande incêndio, basicamente pegou a vida cotidiana, jogou-a no nosso canal, e selou-a lá para nós escavarmos."

Para Knight e sua equipe da Unidade de Arqueologia da Universidade de Cambridge, esta é uma experiência estimulante, e às vezes inquietante.

"Isso não parece arqueologia", disse ele, "parece uma intromissão. Nós chegamos depois de alguma tragédia e conseguimos analisar os restos, e ter algum indício do que acontecia neste assentamento há 3 mil anos."

Dessa forma a escavação parece tanto uma investigação criminal moderna quanto uma exploração da pré-história. Entre aqueles que trabalham aqui, há um especialista forense em incêndio, que espera conseguir determinar onde as chamas começaram e como elas se espalharam.

O fogo destruiu pelo menos duas casas redondas, que eram construídas sobre palafitas de madeira acima de um canal conectado ao rio Nene, e que eram cercados por algum tipo de perímetro.

Como em qualquer boa história de detetive, as pistas fazem a narrativa avançar: uma tigela, com uma colher de madeira e uma refeição inacabada, sugere que quem vivia aqui saiu com pressa. O crânio indica que talvez nem todo mundo tenha sido rápido o suficiente.

Arqueólogos conhecem o local há algum tempo e debatiam o que fazer com ele há mais de uma década. Finalmente, uma decisão foi tomada para escavar e remover os artefatos porque eles corriam o risco de se deteriorar.

Isso deixou uma tarefa enorme e emocionante para os que escavam em temperaturas congelantes, sob uma cobertura temporária. Uma equipe de cerca de uma dúzia de pessoas vem trabalhando desde setembro e o projeto deve terminar em abril, embora esse prazo pareça ambicioso.

Para os arqueólogos, que geralmente trabalham em projetos menores e mais limitados, a perspectiva de conseguir um retrato único da vida cotidiana na Idade do Bronze é excitante.

"É uma janela surpreendente para o outro lado", disse Iona Robinson, supervisora do projeto e pesquisadora da Unidade de Arqueologia da Cambridge. "Nós lidamos com sombras normalmente, lidamos com as ausências, estamos tão acostumados a trabalhar com 50% das evidências. E agora, neste local, temos uma janela fantástica para ver o quadro completo."

Durante a Idade do Bronze, neste ambiente pantanoso, os cursos de água eram o único meio de transporte e comunicação (nove barcos de madeira antigos foram descobertos perto daqui, em 2011), então o local talvez fosse uma espécie encruzilhada de rotas. Ele pode, na verdade, ser um exemplo típico de outros assentamentos, ainda não descobertos, sob os pântanos ingleses.

A partir dos itens recuperados até agora, parece que os homens e mulheres que viviam aqui estavam na ponta de sua sociedade e estabeleceram-se acima do rio por causa do comércio ou outras oportunidades. Isso sugere que o local era um eixo movimentado daquele mundo, e não um posto na periferia dele.

A comunidade aqui tinha boa parte do que estava disponível na Inglaterra pré-histórica: têxteis, cerâmica, lanças e uma ferramenta em forma de foice bem trabalhada. Foram encontradas contas da Europa Central, além de potes, como os descobertos no norte da França e espadas semelhantes às do norte da Espanha.

Tudo isso torna a questão de como esta comunidade encontrou o seu fim dramático ainda mais intrigante. Uma possibilidade é um incêndio acidental. Outra é que ela tenha sido destruída deliberadamente por seus ocupantes, quer como um ato ritual, ou porque as estruturas tinham servido o seu propósito e estavam caindo aos pedaços. No entanto, o fato de que tantas posses tenham sido deixadas depõe contra isso.

A terceira possibilidade é um ataque de vizinhos hostis, e o crânio é o primeiro sinal, de acordo com Knight, de que as pessoas podem ter morrido violentamente aqui.

Ele adverte que em algum momento da Idade do Bronze os britânicos guardavam os crânios de seus ancestrais, então é possível que ele fosse uma relíquia. Mas logo a escavação vai mostrar se o crânio está ligado a um esqueleto.

Essa ideia pode evocar imagens de Pompeia, e a forma como ela preservou os últimos momentos desesperados de seus moradores, mas Must Farm nunca foi destinado a se tornar um sítio arqueológico permanente.

De fato, solucionar o mistério do que aconteceu é uma corrida contra o tempo, e só há uma chance de acertar.

Talvez faça sentido que Must Farm se assemelhe a um canteiro de obras, porque uma vez que os artefatos forem removidos, a escavação será preenchida com terra e tijolo quebrado, e o local deste assentamento tão misterioso e antigo dará lugar a uma rodovia.
 Fonte: Stephen Castle, Em Whittlesey (Inglaterra), radutor: Eloise De Vylder:http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2016/01/31/arqueologos-desvendam-misterio-de-vilarejo-pre-historico-na-inglaterra.htm

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por noticiasdearqueologia às 11:29

Segunda-feira, 01.02.16

Lusitânia: Uma terra no fim do mundo

Exposição no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, recua dois mil anos para nos trazer uma província fundada pelo primeiro dos imperadores romanos, Augusto. Um território periférico que exportava minério e conservas de peixe, que o mito fez terra de nereides e cavalos velozes. Até 30 de Junho.

É através do olhar do outro, o invasor, que a conhecemos. Foram os gregos e depois os romanos, que a conquistaram passados 200 anos, que fizeram o retrato dos povos que ali encontraram. Dois milénios depois a Lusitânia continua a ser, nos livros, o extremo ocidental de um império que já não existe, finisterra que exportava minério e conservas de peixe, com uma porta aberta para o oceano.

Província que tinha em Mérida a sua capital – Augusta Emerita, assim se chamava, mandada construir em 25 a.C. pelo próprio Augusto, primeiro grande imperador romano – era vista como o fim do mundo conhecido. Periférica pela geografia, a Lusitânia foi fundada entre 16 e 13 a.C. e foi ganhando importância, primeiro por causa dos minérios do sul da Península Ibérica e depois, com a conquista da Britânia e o apoio às legiões nela envolvidas, como território em que o Mediterrâneo e o Atlântico se encontravam.

Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos, a exposição que acaba de ser inaugurada no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa, viaja até este território pouco conhecido do império romano, que ocupava grande parte de Portugal, entre o Douro e o Algarve, a actual Extremadura espanhola e uma pequena porção da Andaluzia.

Ao todo reúne 207 peças, provenientes de 14 instituições portuguesas e cinco espanholas, distribuídas por dez núcleos que procuram contar quase 700 anos da história desta península que hoje se vê dividida entre dois países e que, na Antiguidade, deveu aos romanos a sua unidade política, cultural e administrativa.

Mais do que uma exposição de arqueologia, diz António Carvalho, director do MNA, Lusitânia Romana é uma mostra de antiguidade clássica, em que a escultura assume um papel de relevo. “Dificilmente voltaremos a reunir num mesmo local peças tão importantes para tantas instituições”, sublinha o arqueólogo, fazendo referência à presença de vários “tesouros nacionais” portugueses e espanhóis, que prometem “fazer o retrato de um território singular sobre o qual se sabe ainda muito pouco”, quando comparado com outros que integraram aquele que foi o primeiro império global da história.

 

Herói construído

“A Lusitânia é uma construção romana – ela não existe antes como território único”, explica o arqueólogo Carlos Fabião, que divide o comissariado desta exposição que inaugurou no ano passado no Museu Nacional de Arte Romano de Mérida com o seu director, José María Álvarez Martínez, e com António Carvalho.

O que os romanos encontraram ao chegar foi uma multiplicidade de sociedades tribais, com os seus chefes, muito ligadas à natureza. É pelo menos este o retrato difundido, um retrato que, diz este professor da Faculdade de Letras de Lisboa, é preciso questionar. “Nós nunca sabemos como é que os lusitanos, os povos que aqui viviam, se viam, não temos acesso a uma auto-representação. O que deles conhecemos é o que nos dizem gregos e romanos, que falam de uma gente mais ou menos selvagem, que tinha uma relação muito próxima da terra”, diz Fabião. O filósofo e geógrafo grego Estrabão (c. 63 a.C. – 24), por exemplo, faz referência ao temperamento guerreiro das populações, desorganizadas a combater, mas rápidas a reagir a ataques e a lançar emboscadas ao inimigo. “Estrabão fala de uma quase guerrilha, que conhece bem o terreno e que é capaz de surpreender.” E fala também de populações simples, que bebem cerveja em vez de
vinho, comem pão de bolota e usam manteiga e não azeite quando cozinham.

Os relatos mais pormenorizados sobre Viriato, o mítico herói da resistência indígena contra os ocupantes, também se devem a um grego, Diodoro da Sicília (c. 90 a.C. – a 30 a.C.), que o descreve como um chefe justo, corajoso, sóbrio e amado pelos seus homens, mas que acaba assassinado por três dos seus colaboradores mais próximos, graças a um suborno de Roma. “Este Viriato é uma construção filosófica que tem muito pouco a ver com a figura histórica, de que não se sabe praticamente nada, a não ser que era um líder tribal que fez frente aos romanos”, diz Carlos Fabião. “Este herói é um produto da cultura clássica, um defensor da pátria – aqui e em Espanha, é preciso não esquecer que Viriato não é um exclusivo português – antes de ela existir. É uma construção absolutamente anacrónica.”

Verdadeiro ou não, o que sabemos ou julgamos saber dos lusitanos tem muito a ver com esta narrativa ficcional, a de um Viriato que faz parte do panteão dos heróis que combateram Roma. O que a exposição do museu de Arqueologia nos mostra é uma Lusitânia que é produto não do confronto, mas da integração, traçando o perfil de um território que, mesmo depois de conquistado, manteve boa parte da sua organização social, dos seus hábitos e até dos seus deuses.

“Passada a fase inicial do conflito, este território passa a fazer naturalmente parte do império, que é por definição inclusivo.” As elites locais, “indígenas”, revêem-se no modelo romano, que se baseia numa primeira fase no autogoverno, explica Fabião. Quem mandava, sublinha, continua a mandar, mas passa a fazê-lo em nome de Roma. “Nenhum império duraria o que o romano durou se se apoiasse apenas no confronto. Nesta província, como nas outras, há integração, aculturação.”

A Lusitânia, lembra por sua vez o director do museu de Mérida, é um conceito amplo – tem tanto de cultura como de geografia e para o compreender é preciso “olhar para os objectos, para os monumentos, e ouvir o que eles dizem”.

Nesta exposição, os objectos são esculturas de imperadores divinizados e bustos-retrato de olhar melancólico; são falcatas e espadas, taças de prata amalgamadas que alguém tentou esconder do inimigo e jarros de vidro delicado. São inscrições em que uma mulher homenageia o seu marido e os seus dois filhos mortos e placas em que se festeja a doação de um relógio de sol. São pactos de hospitalidade, lápides que referem um oculista de Córdova e marcos miliários, braceletes de prata dourada e fragmentos de estátuas equestres, moedas e placas de bronze em que um povo lusitano se dá por vencido.

 

Na vanguarda

Estes exemplares de cultura material, acrescenta Álvarez Martínez, atestam a “fusão” entre o que os romanos encontraram e o que trouxeram para a Península Ibérica, em inscrições como a recuperada em Arronches, no Nordeste alentejano, no final da década de 1990, uma das primeiras peças com que o visitante do MNA se cruzará, e um dos seis únicos textos conhecidos redigidos em lusitano.

“Os caracteres são latinos, mas a língua é lusitana. É um exemplo perfeito de uma mistura, de uma convivência”, diz este arqueólogo que dirige o museu de Mérida. A lápide, cujo texto está traduzido para português contemporâneo, à semelhança das restantes inscrições da exposição, regista uma série de sacrifícios ou oferendas feitas a divindades locais. “Primeiro os romanos subjugam, mas depois instalam-se e aceitam os costumes, que passam a conviver com os seus. Há crianças que continuam a ter os mesmos nomes pré-romanos, mulheres que se vestem e penteiam como sempre se vestiram e pentearam, sem copiar nada de Roma”, acrescenta Álvarez Martínez, que se define como um “lusitano convicto”, lembrando que foram precisos 200 anos para que os romanos dessem este território por conquistado. Porquê tanto tempo? A topografia difícil, sobretudo no Norte interior, a falta de interesse estratégico em parte do território – as atenções concentravam-se no Sul da península e nos seus minérios – e as guerras civis em Roma, que afectam a alocação de recursos militares, explicam, em boa parte, a demora, diz o arqueólogo Carlos Fabião.

“Eles demoram a tomar conta do território, mas quando o fazem romanizam-no rapidamente, construindo um rede de cidades segundo o modelo mediterrânico e resolvendo assim o problema da pressão demográfica que se colocava.” Antes dos romanos a Península Ibérica já tinha cidades, lembra este professor da Faculdade de Letras, mas não com a estrutura e a dimensão que vieram a impor. Mérida, lembra, é construída para ser a capital, de raiz, como a Brasília do século XX, e Olisipo, o nome que davam a Lisboa, transforma-se por completo para ser o porto oceânico de Augusta Emerita.

“Eles constroem ou redimensionam uma série de cidades pela província, com valor estratégico por estarem junto a minas, ao mar e aos rios Tejo, Sado e Guadiana”, precisa. Na exposição, pode ver-se até onde ia a sua organização e a complexidade das estruturas urbanas nesta província do império em fragmentos de canos de chumbo para o sistema de abastecimento de águas com a marca de Augusta Emerita, tal como hoje podemos encontrar a da EPAL nas condutas de Lisboa.

“No século IV a Lusitânia está na vanguarda do mundo”, assegura o director de Mérida, mencionando as explorações mineiras, a estrutura das cidades e a qualidade da arte que aqui se produzia. “No império as elites circulam muito e isso faz com que os costumes, mas também a arquitectura e as actividades económicas se contaminem”, acrescenta Álvarez Martínez. Fabião não é tão entusiasta em relação ao progresso da Lusitânia, mas lembra que a transformação que traz é “colossal”. Isto porque, sublinha, enquanto primeiro império global, o romano é, por definição, um espaço de inovação, que a história terá dificuldade em acompanhar durante muitos séculos. E para ilustrar esta posição vai buscar dois dados muito concretos: “No século I, Roma tinha já cerca de um milhão de habitantes. Para que uma cidade europeia voltasse a ter este peso demográfico, foi preciso esperar pela Londres do século XVIII. Igualmente impressionante é a concentração de metais pesados na atmosfera – os estudos mais recentes mostram que os valores registados entre os séculos I e III do império romano só voltam a ser igualados na Europa a partir do século XIX, com a revolução industrial.” Os minérios – sobretudo cobre, estanho, chumbo, prata e ouro – são a grande exportação da Lusitânia, a par, um pouco mais tarde, dos preparados de peixe, que tinham em Tróia o maior centro de produção do império.

 

Uma lei para as minas

É precisamente à exploração mineira que se refere uma das peças mais curiosas desta Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos. Trata-se da Tábua de Vipasca II (ano 117-138), um excerto de legislação que regula a extracção de minerais, encontrado em Aljustrel, Beja, com indicações muito precisas em relação às obrigações fiscais, aos deveres do proprietário e às sanções a aplicar a todos os escravos e homens livres que ousassem infringir as regras estabelecidas na província.

“Pela leitura desta lei ficamos a saber que, tal como hoje, as riquezas do subsolo pertenciam ao Estado e que a exploração destes recursos também era feita sob concessão. Sabemos até como funcionava a povoação junto às minas, o que dizia o contrato de arrendamento das termas, que preços se deviam praticar e que funções tinha o mestre-escola”, enuncia Carlos Fabião, garantindo que já naquela altura (século II), “a fiscalidade não dormia”.

Na mesma sala em que está esta legislação, pode ver-se também um sarcófago com as estações do ano representadas, do Museu Soares dos Reis, no Porto, restaurado para a exposição, um busto-retrato e ânforas de barro que transportariam peixe salgado.

“A exportação de peixe e sal é uma das singularidades da Lusitânia, a que se junta a sua ligação ao Atlântico”, explica António Carvalho, defendendo que nesta província se encontra um mar que os romanos dominam – o seu Mare Nostrum, o Mediterrâneo – com um Atlântico que gostariam de controlar.

“Com Augusto [63 a.C. – 14] os romanos vêm para ficar.” Imperador habituado à guerra, Augusto era sobretudo um homem de paz, diz o director do MNA, que manda o seu genro fundar Mérida transformando em colonos os veteranos da 5.ª e da 10.ª legiões, que lhe são muito próximas. “É verdade que há membros da elite romana que são mandados para a Lusitânia como se fossem mandados para o degredo, de castigo, mas não era assim que Augusto olhava para esta província. Os primeiros colonos estão entre os seus soldados preferidos, os seus dilectos, daí o nome de Augusta Emerita. É claro que estamos num espaço periférico, que não é tão atraente como a Gália, a Sicília ou a Mauritânia, mas é uma terra que não destoa do resto do império, de bons mármores e bons cavalos.”

Nota Carlos Fabião, no entanto, que a ideia de que nas lezírias do Tejo corriam alguns dos mais velozes cavalos do império não passa de um mito, algo que perdurou no tempo, acrescenta o director do museu de arqueologia, devido à existência de grandes hipódromos em Mérida e Lisboa (na zona do Rossio) e da carreira de sucesso de um auriga nascido na Lusitânia, Caio Apúlio Diócles, que ganhou quase 1500 das mais de 4000 corridas em que participou.  

“Também se dizia que aqui havia tritões e nereides e houve até uma embaixada de homens de Lisboa que foi contar isto a Roma, ao imperador Tibério. O que não é mito é que este território ajudou a aproximar o império do Atlântico”, conclui Carlos Fabião. A exposição do MNA, que em Julho deverá instalar-se no Museu Arqueológico Nacional, em Madrid, volta a abrir essa porta sobre o oceano, 2000 anos depois.

Fonte: Público, por Lucinda Canelas, 31/01/2016:https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/lusitania-uma-terra-no-fim-do-mundo-1721790

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por noticiasdearqueologia às 11:27

Quarta-feira, 06.01.16

Investigadores à procura de “segredos” arqueológicos e históricos em Vouzela

Especialistas, investigadores e historiadores têm até 2019 para descobrir “os segredos” históricos e arqueológicos do concelho de Vouzela. Um projecto que que tem como objectivo estudar e mostrar o património de um território que é a “porta de entrada” entre o Litoral e a Beira desde a pré-história

Uma das fases das escavações está a incidir sobre a época medieval, e em busca da Torre de Bandavises ENRIC VIVES-RUBIO
  • As universidades Nova de Lisboa (UNL) e do Algarve e a Câmara de Vouzela juntaram-se para “dar à luz do dia” muito do património histórico e arqueológico que existe no concelho de Lafões e que ainda é desconhecido. Os especialistas querem tratar o que já existe e descobrir “o que se sabe que existe” mas que ainda não foi encontrado. 

“Vamos fazer uma intervenção para descobrir a Torre de Bandavises, sabemos que existe. Vamos tentar ver se a encontramos”, exemplificou Catarina Tente, investigadora do Instituto de Estudos Medievais da UNL e uma das coordenadoras de um projecto que tem como objectivo, até 2019, fazer o estudo e valorizar o património histórico e arqueológico da região.

Uma das fases desta investigação vai incidir sobre a época medieval, anunciou a historiadora, salientando que se trata de um levantamento que já está a ser feito. “Vouzela tem, de certeza, um dos maiores acervos do país e com documentação dos tempos mais antigos”, sublinhou.

“Esta é uma região muito importante, porque está num ponto fundamental do território que liga o Litoral à Beira. Vouzela foi sempre uma porta de entrada, desde a pré-história. Do ponto de vista científico, este é um território muito atractivo”, justificou a historiadora.

O projecto, que vai ser apresentado à tutela em Maio próximo e é candidato aos fundos comunitários, está dividido em três vertentes. Segundo Catarina Tente, há uma parte que envolve a investigação “pura e dura” com a prospecção do património que já é conhecido dentro do concelho. A ideia “é ter mais e melhor informação”. Numa segunda linha de orientação, além da monitorização do património, a equipa que vai estar no terreno pretende trazer “à luz do dia” novos achados, partindo da investigação e efectuando sondagens em sítios considerados importantes cronologicamente. Por fim, é intenção dos responsáveis dar “especial atenção” ao espólio, nomeadamente ao que já existe no museu local, que “carece de revisão e estudo”.

“O resultado é ter um museu pronto a ser inaugurado com muitos conteúdos, que possa contribuir para a diferenciação que o concelho quer ter”, desejou a especialista.

“Este é um projecto multidisciplinar e multicronológico. Vamos explorar ao máximo a arqueologia e a história, mas chamando outras ciências que nos vão ajudar a obter mais conhecimentos sustentados”, concluiu.
Para os envolvidos neste projecto, o que se vai conseguir no futuro é “aumentar o conhecimento sobre o passado do concelho, revelar património histórico e arqueológico até agora desconhecido, recuperar e valorizar património já conhecido e torná-lo mais acessível a todos através de sinalização, conteúdos explicativos e reconstituições multimédia”, como explicou Rui Ladeira, presidente da Câmara de Vouzela.

Para as instituições de ensino, significa, por um lado, “colocar os alunos em contacto com a realidade da investigação científica e das práticas profissionais”, de acordo com António Faustino, da Universidade do Algarve. Já o seu colega da UNL, Francisco Caramelo, o exemplo de Vouzela “deveria ser seguido por outras autarquias do país”.

“Temos assistido a alguns desvarios, mas as autarquias e as universidades têm sido bons exemplos de responsabilidade para com as comunidades e de boa aplicação dos dinheiros públicos”, salientou.

 

Valorização das torres medievais de Vilharigues, Alcofra e Cambra
O presidente da Câmara de Vouzela anunciou que estão a ser estudadas formas de valorizar as torres medievais de Vilharigues e de Alcofra através de projectos museológicos. “A senhoralização da região de Lafões” e “Quotidianos e vivências da casa medieval” são os projectos previstos para estes dois monumentos, respectivamente.

 Também a torre de Cambra será dotada, à semelhança das duas anteriores, de conteúdos explicativos para o visitante, que poderá ainda aceder, através de dispositivos móveis, a uma reconstituição multimédia. Ainda para Cambra, o autarca anunciou a elaboração de um projecto museológico sobre a freguesia e o seu território. 

Fonte: (04.01.2016): http://www.publico.pt/local/noticia/investigadores-a-procura-de-segredos-arqueologicos-e-historicos-em-vouzela-1718683

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por noticiasdearqueologia às 10:45

Quarta-feira, 06.01.16

Manuscritos de Chumbo encontrados na Jordânia – um deles traz possível rosto de Cristo

O governo da Jordânia tenta repatriar livros feitos de chumbo que, segundo suspeitas de especialistas, parecem ser os mais antigos da história cristã, tendo sobrevivido a quase 2.000 anos em uma caverna do país do Oriente Médio.

As páginas, do tamanho de um cartão de crédito, têm imagens, símbolos e palavras que parecem se referir ao Messias e, possivelmente, até mesmo, a crucificação e ressurreição, podendo assim trazer à luz novos dados para o entendimento sobre o nascimento do cristianismo e sobre a crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo.

Como a arqueologia bíblica é vítima de muitas fraudes, os investigadores estão sendo cautelosos, porém pesquisas metalúrgicas iniciais indicam que os códices são cerca de 2.000 anos – “especialistas acreditam que seria impossível tingir artificialmente”, diz Macrae baseado na forma de corrosão a que foram submetidos.

 

Descoberta

A saga de sua descoberta já desencadeou uma batalha sobre os direitos de propriedade entre Israel e Jordânia.

Os livros foram descobertos há cinco anos em uma caverna numa parte remota do Jordão, em uma região conhecida como o lugar que os cristão se refugiaram após a queda de Jerusalém em 70 d.C. Documentos importantes do mesmo período já foram encontrados lá.

O conjunto de cerca de 70 livros – cada um com cerca de 5 e 15 "folhas" de chumbo presas por aros de chumbo – foi aparentemente descoberto em um vale remoto e árido no norte da Jordânia, entre 2005 e 2007. Uma enchente expôs dois nichos dentro da caverna, um deles marcado com um menorá, candelabro que é símbolo do judaísmo.  Um beduíno jordaniano abriu os nichos e o que encontrou ali dentro parecia ser uma relíquia extremamente rara dos primórdios do cristianismo.

Essa é a visão do governo da Jordânia, que alega que os livros foram contrabandeados para Israel por outro beduíno.  O beduíno israelense que atualmente guarda os livros nega tê-los contrabandeado e alega que as antiguidades são peças que sua família possui há cem anos.  O governo jordaniano disse que fará "todos os esforços, em todos os níveis" para repatriar as relíquias.

A caverna na Jordânia, onde os artefatos foram descobertos:

 

Significado oculto

Muitos dos livros estão selados, o que leva alguns acadêmicos a especular se eles não são a coleção perdida de códices, mencionados no livro bíblico de Apocalipse. (!)

Significado oculto: listas, tabuletas e outros artefatos, incluindo um vaso de incenso, também foram encontrados no mesmo local.  Uma pintura do século XVI descrevendo a morte de Jesus.

De acordo com a BBC, uma das poucas frases traduzidas até agora diz: “Vou andar em retidão” – uma frase que também aparece no Livro do Apocalipse. “Embora a frase possa ser simplesmente um sentimento comum no judaísmo, também poderia ter sido escrita para se referir à ressurreição.”, disse o escritor Robert Pigott da BBC.

Valor Histórico

O diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia, Ziad Al-Saad, diz que os livros parecem ter sido feitos por seguidores de Jesus nas décadas seguintes a sua crucificação.   "Talvez eles sejam mais significativos que os pergaminhos do mar Morto", disse Saad.   "Talvez eles precisem de mais interpretação e conferência de autenticidade, mas a informação inicial é muito animadora. Parece que estamos diante de uma descoberta importante e significativa, talvez a mais importante da história da arqueologia."

As "folhas" dos livros contêm textos escritos em hebraico antigo, a maior parte em código. Se as relíquias forem de fato de origens cristãs, em vez de judaicas, são de grande significado.

Um dos poucos a ter visto a coleção é David Elkington, acadêmico que estuda arqueologia religiosa e líder de uma equipe britânica empenhada em levar os livros a um museu na Jordânia.  Elkington alega que os livros podem ser "a maior descoberta da história cristã".  "É de tirar o fôlego a ideia que tenhamos contato com objetos que podem ter sido portados pelos primeiros santos da Igreja."

O acadêmico diz que as relíquias contêm sinais que seriam interpretados pelos cristãos da época, como imagens de Jesus e de Deus e da "chegada do messias".

Na "capa" de um dos livros "vemos o menorá de sete ramificações, o que os judeus eram proibidos de representar porque ele residia no local mais sagrado do templo, na presença de Deus", explica Elkington. "Assim, temos a vinda do messias para obter a legitimidade de Deus."

O estudioso do Novo Testamento Larry Hurtado observa que, uma vez que estes códices são em miniaturas, eram provavelmente destinados a pessoas particulares, ao invés de ser usado em liturgias.

Imagens

Philip Davies, professor emérito de estudos do Velho Testamento da Universidade de Sheffield, afirma que a prova mais contundente da origem cristã das relíquias está em um mapa feito da cidade sagrada de Jerusalém.

"Há uma cruz em primeiro plano e, atrás dela, está o que seria a tumba (de Jesus), um pequeno edifício com uma abertura e as muralhas da cidade. Outras muralhas representadas em outras páginas dos livros quase certamente se referem a Jerusalém", diz Davies, que afirma ter ficado "estupefato" com as imagens, "claramente cristãs".

A cruz é o que mais chama a atenção dos especialistas, feita no formato de um T maiúsculo, como eram as cruzes que os romanos usavam para crucificações.

 

"É uma crucificação ocorrida fora dos muros da cidade", diz Davies.

Margaret Barker, especialista em história do Novo Testamento, ressalta que o local onde se acredita que as relíquias tenham sido encontradas denota sua origem cristã – e não puramente judaica.

"Sabemos que, em duas ocasiões, grupos de refugiados dos distúrbios em Jerusalém rumaram a leste, atravessaram a Jordânia perto de Jericó e foram para perto de onde esses livros parecem ter sido achados."

Ela acrescenta que outra prova da "proveniência cristã" é que as relíquias são em formato de livros, e não de pergaminhos. "Os cristãos eram particularmente associados com a escrita na forma de livros e guardavam os livros como parte da secreta tradição do início do cristianismo."

O Livro das Revelações se refere a esses textos guardados.

Outro possível elo com a Bíblia está contido em um dos poucos fragmentos de texto que foram traduzidos das relíquias. O fragmento, acompanhado da imagem do menorá, diz: "Devo andar honradamente", frase que também aparece no Livro das Revelações.

Ainda que a frase possa simplesmente significar um sentimento comum no judaísmo, pode também se referir à ressurreição.

Testes

Não está esclarecido se todos os artefatos descobertos são partes do mesmo período, mas testes feitos no chumbo corroído dos livros indicam que eles não foram feitos recentemente.

A arqueologia dos primórdios do cristianismo é especialmente esparsa ainda. Pouco se sabe dos desdobramentos após a crucificação de Jesus até as cartas escritas por Paulo, décadas mais tarde.

A história contida nas relíquias parece ser, assim, a descoberta de maior escala até agora dessa época do cristianismo, em sua terra de origem e em seus primórdios.

Porém, só com mais investigação e tradução integral dos códices é que se pode confirmar plenamente a natureza da descoberta.

Retrato de Jesus

A imagem é estranhamente familiar: um homem barbado com cabelos encaracolados. Após ficar por quase 2000 anos escondidos em uma caverna na Terra Santa, os pequenos detalhes são difíceis de determinar. Mas dependendo da luz, não é difícil de interpretar as marcas ao redor da testa da figura como uma coroa de espinhos.

 

A figura extraordinária de um tesouro recém-descoberto é um dos motivos pelos quais historiadores bíblicos estão ansiosos para poderem avaliar os antigos artefatos.

Se verdadeiro, este poderia ser o mais antigo retrato de Jesus Cristo, possivelmente até mesmo feito durante a vida de quem o conhecia.

A pequena brochura, é selada em todos os lados e tem uma representação tridimensional de uma cabeça humana, tanto na frente quanto nas costas. Uma parece ter uma barba e a outra não. Até mesmo a impressão digital do fabricante pode ser vista na impressão de chumbo. Abaixo das figuras há uma linha de texto em hebraico antigo, ainda não decifrada.

Surpreendentemente, um dos folhetos parece ostentar a menção "Salvador de Israel" – uma das poucas frases até agora traduzidas.

Hassan Saida

O dono do achado é o caminhoneiro beduíno Hassan Saida, que vive na aldeia árabe de Umm al-Ghanim, Shibli. Ele se recusou a vender os artefatos, mas duas amostras foram enviadas para a Inglaterra e Suíça para exames.

 

Hassan Saida com alguns dos artefatos que ele diz ter herdado

 

Uma investigação do Mail on Sunday revelou que os artefatos foram originalmente encontrados em uma caverna na aldeia de Saham na Jordânia, perto de onde Israel, a Jordânia e os Morros Sirios de Golã convergem – e a aproximadamente 5 quilometros do balneário israelense e fontes termais de Hamat Gader, um santuario religioso por milhares de anos.

De acordo com fontes em Saham, eles foram descobertos cinco anos atrás, depois de uma enchente lavar a região e afastar o solo empoeirado da montanha para revelar o que parecia uma pedra de grandes dimensões. Quando a pedra foi movida, uma gruta foi descoberta com um grande número de pequenos nichos nas paredes do conjunto. Cada um desses nichos continha um livreto. Havia também outros objetos, incluindo algumas placas de metal e chumbo enrolados.

A zona é conhecida como antigo refúgio dos judeus fugindo das sangrentas revoltas contra o Império Romano no primeiro e início do segundo séculos dC.

A gruta esta a menos de 100 quilômetros de Qumran, onde os Manuscritos do Mar Morto foram descobertos, e cerca de 60 quilômetros de Masada, cena da última parada e suicídio em massa de uma seita Zealote extremista frente ao cerco do exército romano em 72AD – dois anos após a destruição do Segundo Templo em Jerusalém.

É também perto de cavernas que foram usadas como refúgios de refugiados da revolta de Bar Kokhba, a terceira e última revolta judaica contra o Império Romano em 132AD.

A época é de crucial importância para os estudiosos da Bíblia, pois abrange as perturbações políticas, sociais e religiosos que levaram à separação entre judaísmo e cristianismo.

Ela terminou com o triunfo do cristianismo sobre os seus rivais como a nova religião dominante primeiro para os judeus dissidentes e depois para os gentios.

Neste contexto, é importante que, enquanto os Manuscritos do Mar Morto são pedaços de pergaminho ou papiro enrolados contendo as primeiras versões conhecidas dos livros da Bíblia hebraica e outros textos – o formato tradicional judaico para trabalho escrito – estas descobertas em chumbo estão em formato de livro, ou códice, que há muito tem sido associado com a ascensão do cristianismo.

Os códices visto pelo Mail on Sunday variam em tamanho. De itens menores que 7,5cm x 6cm até cerca de 25cm x 20cm. Cada um deles contém uma média de oito ou nove páginas e parecem ser de molde, ao invés de inscritos, com imagens de ambos os lados e presos com aneis de chumbo. Muitos deles estavam severamente corroídos quando foram descobertos, embora tenha sido possível abri-los com cuidado.

O códice mostrando o que pode ser o rosto de Cristo parece não ter sido aberto ainda. Alguns códices mostram sinais de terem sido enterrados – embora isso possa ser simplesmente resultado de terem ficado em uma caverna por centenas de anos.

Ao contrário dos Manuscritos do Mar Morto, os códices de chumbo parecem consistir de imagens estilizadas, em vez de texto, com uma quantidade relativamente pequena de escrita, que parece estar em um idioma fenício, embora o dialeto exato ainda não tenha sido identificado. Na época em estes códices foram criados, a Terra Santa era povoada por diferentes seitas, incluindo essênios, samaritanos, fariseus, saduceus, dositeanos e nazarenos.

 

A impressão na capa desta brochura mostra o que poderia ser a primeira imagem de Cristo.

 Não havia escrita comum e mistura considerável de linguagem e sistemas de escrita entre os grupos. O que significa que poderá levar anos de estudos detalhados para interpretar corretamente os códices.

Uma placa foi interpretada como um mapa esquemático da Jerusalém Cristã apresentando cruzes romanas fora dos muros da cidade. Na parte superior pode ser visto de uma forma de escada. Isto é tido como sendo uma balaustrada mencionada em uma descrição bíblica do Templo em Jerusalém. Abaixo dele estão três grupos de alvenaria, para representar os muros da cidade.

O fato de uma figura ser retratada parece descartar o fato destes livretos estarem ligados ao judaísmo da época, onde o retrato de figuras reais era estritamente proibido, porque era considerada idolatria.

Se genuínos, parece claro que estes livretos foram, na verdade, criados por uma seita messiânica judaica primitiva, talvez intimamente ligada à igreja cristã primitiva e que estas imagens representem o próprio Cristo. Contudo uma outra teoria, defendida por Robert Feather – uma autoridade nos Manuscritos do Mar Morto e autor de O Mistério do Pergaminho de Cobre de Qumran – é que estes livros estão ligados a Revolta Bar Kochba Revolta dos anos 132-136 AD, a terceira maior rebelião dos judeus da Provincia de Judéia e a última das Guerras judaico-romanas.

A revolta estabeleceu um estado independente de Israel em partes da Judéia durante dois anos, antes do exército romano, finalmente, esmagá-la, com o resultado que todos os judeus, incluindo os primeiros cristãos, foram impedidos entrar em Jerusalém.

A caverna na Jordânia, onde os livros do metal foram descobertos

Os seguidores de Simon Bar Kochba, o comandante da revolta, o aclamaram como Messias, uma figura heróica que poderia restaurar Israel. Embora os judeus cristãos saudassem Jesus como o Messias e não apoiassem Bar Kochba, eles foram também impedidos de entrar em Jerusalém, juntamente com o restante dos judeus. A guerra e suas conseqüências ajudaram a diferenciar o cristianismo como uma religião distinta do judaísmo.

O líder espiritual da revolta foi o Rabino Shimon Bar Yochai, que lançou as bases para uma forma mística de judaísmo hoje conhecida como a Cabala, que é seguido por Madonna, Britney Spears e outros. Yochai se escondeu em uma caverna por 13 anos e escreveu um comentário secreto sobre a Bíblia, o Zohar, que evoluiu para os ensinamentos da Cabala. Feather está convencido de que parte dos textos nos livretos levam o nome do Rabino Bar Yochai.

Feaher diz que todos os códices conhecidos antes de cerca de 400 AD eram feitos de pergaminho e que o uso de chumbo impresso é desconhecido. Eles estavam claramente destinados a existir para sempre e para nunca serem abertos. O uso do metal como material de escrita naquela época está bem documentado – no entanto, o texto sempre foi inscrito, não impresso.

Os livros estão atualmente na posse de Hassan Saida, em Umm al-Ghanim, Shibli, que fica no sopé do Monte Tabor, 18 milhas ao oeste do Mar da Galiléia.

Saida possui e opera uma empresa de transportes que consiste de pelo menos nove grandes caminhões de carroceria aberta. Ele é considerado na sua aldeia como um homem rico. Seu avô chegou lá a mais de 50 anos e sua mãe e quatro irmãos ainda moram lá.

Saida, que tem por volta de 30 anos, casado e com cinco ou seis filhos, afirma que herdou os livretos de seu avô.

Quando ele obteve os livretos, não tinha idéia do que fossem, ou mesmo se eles eram genuínos.

Entrou em contato com a Sotheby's em Londres, em 2007, em uma tentativa de contratar uma peritagem, mas a famosa casa de leilões se negou a lidar com eles, porque sua origem não era conhecido.

Logo depois, o autor e jornalista britânico Nick Fielding foi abordado por uma mulher palestina que estava preocupada que os livretos fossem vendidos no mercado negro. Fielding foi convidado a abordar o British Museum, o Museu Fitzwilliam, em Cambridge e outros lugares.

Fielding viajou para Israel e obteve uma carta da Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) dizendo que não tinha nenhuma objeção a que os objetos fossem levados ao exterior para análise. Parece que o IAA acreditava que os livretos eram falsos, baseando-se em que nada como aquilo havia sido descoberto antes.

Nenhum dos museus queria envolver-se, novamente por causa de preocupações com a proveniência. Fielding foi então convidado a abordar especialistas para descobrir o que eram e se eram verdadeiros. David Feather, que é também um metalúrgico bem como um especialista em Manuscritos do Mar Morto, recomendou a apresentação das amostras para análise de metais na Universidade de Oxford.

O trabalho foi realizado pelo Dr. Peter Northover, chefe da ciência de materiais-base do Grupo de Arqueologia e um perito mundial na análise de materiais metálicos antigos.

As amostras foram então enviados para o Laboratório Nacional de Materiais de Dubendorf, na Suíça. Os resultados mostraram que eles eram consistentes com a antiga produção de chumbo do período romano e que o metal era fundido a partir de minérios que se originaram no Mediterrâneo. Dr Northover disse também que a corrosão nos livros era improvável de ser moderna.

Enquanto isso, a política em torno da origem dos livros está se intensificando. A maioria dos estudiosos profissionais são cautelosos na pendência de mais investigações e apontam para o julgamento de falsificação em curso em Israel sobre o ossuário de pedra calcária antiga que supostamente teria abrigado os ossos de Tiago, irmão de Jesus.

A Autoridade arqueológica Israelense tentou acalmar problemas de proveniência, lançando dúvidas sobre a autenticidade dos códices, mas Jordan diz que vai 'exercer todos os esforços em todos os níveis' para que as relíquias sejam repatriadas.

O debate sobre se esses livretos são verdadeiras e, nesse caso, se representam os primeiros artefatos conhecidos da igreja cristã primitiva e os primeiros indícios da Cabala mística, sem dúvida ira seguir e crescer pelos próximos anos.

O diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia, Ziad al-Saad, tem poucas dúvidas. Ele acredita que eles podem de fato ter sido feitos pelos seguidores de Jesus, poucas décadas imediatamente após a sua crucificação.

"Eles realmente se igualam, e talvez sejam ainda mais significativos do que os Manuscritos do Mar Morto", diz ele. "A informação inicial é muito encorajadora, e parece que estamos olhando para uma descoberta muito importante e significativa. – Talvez a descoberta mais importante na história da arqueologia"

Se ele estiver certo, então nós realmente podemos estar olhando para o rosto de Jesus Cristo.

Fonte: (7.4.2011) - http://geracaomaranata.com.br/2011/04/manuscritos-de-chumbo-encontrados-na-jordania-um-deles-traz-possivel-rosto-de-cristo/

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por noticiasdearqueologia às 10:38


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