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NOTÍCIAS DE ARQUEOLOGIA

O Património é um bem comum... Preservá-lo só depende de cada um de nós...



Quinta-feira, 07.10.10

A vulgarização do património

Os destinos da Cultura e do Património Nacional estão entregues a dirigentes cada vez mais incompetentes e irresponsáveis.

A Cultura e o Património ganharam lugar na sociedade Portuguesa fruto do trabalho de pessoas que, tenaz e pacientemente, os descodificaram e divulgaram, introduzindo-os como temas importantes da nossa vida em sociedade. Actualmente, verificamos o efeito contrário. O Património, de tão difundido, está vulgarizado e é usado (mal), para adornar os mais banais aspectos da nossa mercantil sociedade. Passando a ser falados diariamente na comunicação social e abertos ao grande público, deixaram de estar reservados apenas aos especialistas. Como têm inegável estatuto social, rapidamente começaram a ser apetecíveis para usar com fins desajustados do seu conteúdo profundo, por gente sem escrúpulos apenas interessada no lucro fácil.
Anda por aí a toda a hora nos jornais e nas televisões um “concurso” que acha que o Património, neste caso o Natural, se pode classificar e ser votado, como se de um concurso de fadistas ou de Misses se tratasse. Já houve a mesma marmelada com o Património Monumental, e o negócio deve ter corrido bem. É assim também com os outros concursos da televisão. Começaram por um para cantores amadores, e a coisa alastrou para pequenos cantores, depois para dançarinos, mais tarde para dançarinos no gelo, agora são modelos, e hão-de vir por aí outros que a imaginação não tem fim. Mas ainda assim, uma coisa são estes assuntos do entretenimento e outra coisa são os bens patrimoniais, sejam eles monumentais, históricos, naturais, arqueológicos ou imateriais. São coisas diferentes e com níveis de abordagem distintos. O património tem um estatuto exclusivo que não pode ser equiparado a realidades comuns. É um assunto sério, que deve merecer a atenção do Estado, que o deve defender e proteger de todo o tipo de vilipêndio, inclusive este de o tornar “elegível” pelo voto popular. Por este caminho, até as barracas dos sem abrigo serão consideradas património, bastando para isso que num coscursozeco desses, obtenham mais votos que o Mosteiro dos Jerónimos. E o que é que o Estado e as Instituições Públicas fazem para impedir este baixar de nível no que se refere ao Património Nacional? Nada. Antes pelo contrário. É ver ministros, homens de estado e mesmo da cultura, autarcas e outros oportunistas, a dar a cara e a aparecer ao lado, que é o que eles gostam. Alguns também ganham algumas coroas porque são “comissários” da coisa, depois escrevem umas patacoadas a defender aquilo e vão à televisão a uns debates, e assim se vai cumprindo o triste destino de Portugal.
De assunto ignorado e para intelectuais, o Património agora já é apresentado como prémio de campanhas nos supermercados (compre as bolachas tal e habilite-se a um fim de semana no Parque Natural do Gerês, ou no Centro Histórico de Guimarães) ou seja, o Património serve para tudo, todos se servem do Património, mas ninguém serve o Património, ou se serve, serve mal, que é o habitual.
As notícias de atentados são diárias: destruição de monumentos, problemas em zonas históricas, intervenções clandestinas em zonas classificadas, maus tratos de zonas naturais, intervenções pesadas em zonas sensíveis (e depois lá surgem as cheias e as derrocadas que provocam mortos e feridos), intervenções erradas usando técnicas e materiais em desacordo com os procedimentos correctos, enfim, basta abrir os jornais e ver as televisões para que os assuntos apareçam.
Quer então dizer que o facto de o Património ter passado a estar na moda, e de servir de tema para concursos de televisão, não melhorou nada em relação ao modo como o estado e as autarquias o continuam a tratar: com desprezo e sobranceria. Este fenómeno, antes pelo contrário, parece estar a tornar os monumentos mais vulneráveis. É comum, decisores ignorantes, técnicos incompetentes e empreiteiro curiosos, atrevem-se a mandar as mãos a um edifício e a proporem obras de intervenção hediondas: mudar-lhe o uso, a maioria das vezes para fins risíveis, do qual resulta a destruição do existente e a criação de uma coisa que não funciona; usar as técnicas e os materiais que se usam numa obra vulgar; não saber que existem materiais e técnicas incompatíveis com edifícios antigos; não ter cuidado com a investigação preliminar, seja ela arqueológica ou documental; desprezar o edifício ou o sítio por ser moderno, que é uma coisa que os ignorantes não entendem; destruir de forma irrecuperável sítios e edifícios por analfabetismo cultural e decisões erradas. De todos estes casos temos exemplos debaixo do nariz. Basta estar atento. O Estado e as Autarquias são as principais responsáveis por estas asneiras porque não têm cuidados acrescidos quando se trata de intervir em Património. O que interessa é anunciar obras, de preferência com muitos metros quadrados de pavimentos e muitos metros cúbicos de betão. É a chamada obra a metro. Os Planos Directores Municipais, que deveriam ter levantamentos correctos de todos os bens patrimoniais (cartas do património), ignoram olimpicamente a maioria deles, porque não sabem, não conhecem e colocam estes assuntos nas mãos de quem não têm competência para o fazer. Os destinos da Cultura e do Património Nacional estão entregues a dirigentes cada vez mais incompetentes e irresponsáveis. Reina o caos em todos os aspectos que digam respeito à Cultura, ao Património, à Paisagem, à Arqueologia, aos Museus e aos Monumentos. É urgente que se ponha um travão a este estado de coisas, e que haja algum bom senso, pois caso contrário, se já somos um Pais sem presente e sem futuro, rapidamente seremos um Pais sem passado.
Fonte: Jorge Cruz (25 Det 2010): Região Sul: http://www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=109146

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por noticiasdearqueologia às 13:05


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