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NOTÍCIAS DE ARQUEOLOGIA

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Segunda-feira, 01.02.16

Arqueólogos desvendam mistério de vilarejo pré-histórico na Inglaterra

  • Andrew Testa/The New York Times

Ninguém sabe por que um incêndio catastrófico destruiu o pequeno povoado construído ao lado de um canal do rio, incinerando as casas de várias famílias e lançando madeira em chamas pântano abaixo. Pode ter sido um acidente, um ataque de inimigos ou até mesmo algum tipo de ritual.

No entanto, respostas estão surgindo, pedaço por pedaço, cerca de 3 mil anos mais tarde.

O sítio arqueológico Must Farm, em Cambridgeshire, é considerado tão rico que tem sido comparado a Pompeia, a cidade romana enterrada pela erupção do Monte Vesúvio em 79 dC.

Must Farm não se parece com uma ruína pitoresca, muito menos uma fazenda. Ela ocupa um terreno enlameado, com turbinas eólicas e chaminés se erguendo ao longe. E os coletes amarelos fluorescentes usadas pelas pessoas envolvidas na escavação fazem com que ele pareça um canteiro de obras.

Mas seus tesouros chamam atenção. Na terra encharcada, apareceram uma tigela de madeira carbonizada e um vaso de cerâmica na semana passada, perto do esqueleto de uma vaca, presumivelmente abatida para fornecer alimento. A poucos passos de distância, a forma inconfundível de um crânio humano se projetava em meio à lama na qual esteve enterrado desde a Idade do Bronze.

"A analogia com Pompeia, da qual vivem falando, é verdadeira nesse local, mas também é falsa", disse Mark Knight, diretor sítio arqueológico. "Não há nenhum vulcão nesta paisagem; este não foi um desastre natural. Mas um acontecimento, como um grande incêndio, basicamente pegou a vida cotidiana, jogou-a no nosso canal, e selou-a lá para nós escavarmos."

Para Knight e sua equipe da Unidade de Arqueologia da Universidade de Cambridge, esta é uma experiência estimulante, e às vezes inquietante.

"Isso não parece arqueologia", disse ele, "parece uma intromissão. Nós chegamos depois de alguma tragédia e conseguimos analisar os restos, e ter algum indício do que acontecia neste assentamento há 3 mil anos."

Dessa forma a escavação parece tanto uma investigação criminal moderna quanto uma exploração da pré-história. Entre aqueles que trabalham aqui, há um especialista forense em incêndio, que espera conseguir determinar onde as chamas começaram e como elas se espalharam.

O fogo destruiu pelo menos duas casas redondas, que eram construídas sobre palafitas de madeira acima de um canal conectado ao rio Nene, e que eram cercados por algum tipo de perímetro.

Como em qualquer boa história de detetive, as pistas fazem a narrativa avançar: uma tigela, com uma colher de madeira e uma refeição inacabada, sugere que quem vivia aqui saiu com pressa. O crânio indica que talvez nem todo mundo tenha sido rápido o suficiente.

Arqueólogos conhecem o local há algum tempo e debatiam o que fazer com ele há mais de uma década. Finalmente, uma decisão foi tomada para escavar e remover os artefatos porque eles corriam o risco de se deteriorar.

Isso deixou uma tarefa enorme e emocionante para os que escavam em temperaturas congelantes, sob uma cobertura temporária. Uma equipe de cerca de uma dúzia de pessoas vem trabalhando desde setembro e o projeto deve terminar em abril, embora esse prazo pareça ambicioso.

Para os arqueólogos, que geralmente trabalham em projetos menores e mais limitados, a perspectiva de conseguir um retrato único da vida cotidiana na Idade do Bronze é excitante.

"É uma janela surpreendente para o outro lado", disse Iona Robinson, supervisora do projeto e pesquisadora da Unidade de Arqueologia da Cambridge. "Nós lidamos com sombras normalmente, lidamos com as ausências, estamos tão acostumados a trabalhar com 50% das evidências. E agora, neste local, temos uma janela fantástica para ver o quadro completo."

Durante a Idade do Bronze, neste ambiente pantanoso, os cursos de água eram o único meio de transporte e comunicação (nove barcos de madeira antigos foram descobertos perto daqui, em 2011), então o local talvez fosse uma espécie encruzilhada de rotas. Ele pode, na verdade, ser um exemplo típico de outros assentamentos, ainda não descobertos, sob os pântanos ingleses.

A partir dos itens recuperados até agora, parece que os homens e mulheres que viviam aqui estavam na ponta de sua sociedade e estabeleceram-se acima do rio por causa do comércio ou outras oportunidades. Isso sugere que o local era um eixo movimentado daquele mundo, e não um posto na periferia dele.

A comunidade aqui tinha boa parte do que estava disponível na Inglaterra pré-histórica: têxteis, cerâmica, lanças e uma ferramenta em forma de foice bem trabalhada. Foram encontradas contas da Europa Central, além de potes, como os descobertos no norte da França e espadas semelhantes às do norte da Espanha.

Tudo isso torna a questão de como esta comunidade encontrou o seu fim dramático ainda mais intrigante. Uma possibilidade é um incêndio acidental. Outra é que ela tenha sido destruída deliberadamente por seus ocupantes, quer como um ato ritual, ou porque as estruturas tinham servido o seu propósito e estavam caindo aos pedaços. No entanto, o fato de que tantas posses tenham sido deixadas depõe contra isso.

A terceira possibilidade é um ataque de vizinhos hostis, e o crânio é o primeiro sinal, de acordo com Knight, de que as pessoas podem ter morrido violentamente aqui.

Ele adverte que em algum momento da Idade do Bronze os britânicos guardavam os crânios de seus ancestrais, então é possível que ele fosse uma relíquia. Mas logo a escavação vai mostrar se o crânio está ligado a um esqueleto.

Essa ideia pode evocar imagens de Pompeia, e a forma como ela preservou os últimos momentos desesperados de seus moradores, mas Must Farm nunca foi destinado a se tornar um sítio arqueológico permanente.

De fato, solucionar o mistério do que aconteceu é uma corrida contra o tempo, e só há uma chance de acertar.

Talvez faça sentido que Must Farm se assemelhe a um canteiro de obras, porque uma vez que os artefatos forem removidos, a escavação será preenchida com terra e tijolo quebrado, e o local deste assentamento tão misterioso e antigo dará lugar a uma rodovia.
 Fonte: Stephen Castle, Em Whittlesey (Inglaterra), radutor: Eloise De Vylder:http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2016/01/31/arqueologos-desvendam-misterio-de-vilarejo-pre-historico-na-inglaterra.htm

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por noticiasdearqueologia às 11:29

Segunda-feira, 01.02.16

Lusitânia: Uma terra no fim do mundo

Exposição no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, recua dois mil anos para nos trazer uma província fundada pelo primeiro dos imperadores romanos, Augusto. Um território periférico que exportava minério e conservas de peixe, que o mito fez terra de nereides e cavalos velozes. Até 30 de Junho.

É através do olhar do outro, o invasor, que a conhecemos. Foram os gregos e depois os romanos, que a conquistaram passados 200 anos, que fizeram o retrato dos povos que ali encontraram. Dois milénios depois a Lusitânia continua a ser, nos livros, o extremo ocidental de um império que já não existe, finisterra que exportava minério e conservas de peixe, com uma porta aberta para o oceano.

Província que tinha em Mérida a sua capital – Augusta Emerita, assim se chamava, mandada construir em 25 a.C. pelo próprio Augusto, primeiro grande imperador romano – era vista como o fim do mundo conhecido. Periférica pela geografia, a Lusitânia foi fundada entre 16 e 13 a.C. e foi ganhando importância, primeiro por causa dos minérios do sul da Península Ibérica e depois, com a conquista da Britânia e o apoio às legiões nela envolvidas, como território em que o Mediterrâneo e o Atlântico se encontravam.

Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos, a exposição que acaba de ser inaugurada no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa, viaja até este território pouco conhecido do império romano, que ocupava grande parte de Portugal, entre o Douro e o Algarve, a actual Extremadura espanhola e uma pequena porção da Andaluzia.

Ao todo reúne 207 peças, provenientes de 14 instituições portuguesas e cinco espanholas, distribuídas por dez núcleos que procuram contar quase 700 anos da história desta península que hoje se vê dividida entre dois países e que, na Antiguidade, deveu aos romanos a sua unidade política, cultural e administrativa.

Mais do que uma exposição de arqueologia, diz António Carvalho, director do MNA, Lusitânia Romana é uma mostra de antiguidade clássica, em que a escultura assume um papel de relevo. “Dificilmente voltaremos a reunir num mesmo local peças tão importantes para tantas instituições”, sublinha o arqueólogo, fazendo referência à presença de vários “tesouros nacionais” portugueses e espanhóis, que prometem “fazer o retrato de um território singular sobre o qual se sabe ainda muito pouco”, quando comparado com outros que integraram aquele que foi o primeiro império global da história.

 

Herói construído

“A Lusitânia é uma construção romana – ela não existe antes como território único”, explica o arqueólogo Carlos Fabião, que divide o comissariado desta exposição que inaugurou no ano passado no Museu Nacional de Arte Romano de Mérida com o seu director, José María Álvarez Martínez, e com António Carvalho.

O que os romanos encontraram ao chegar foi uma multiplicidade de sociedades tribais, com os seus chefes, muito ligadas à natureza. É pelo menos este o retrato difundido, um retrato que, diz este professor da Faculdade de Letras de Lisboa, é preciso questionar. “Nós nunca sabemos como é que os lusitanos, os povos que aqui viviam, se viam, não temos acesso a uma auto-representação. O que deles conhecemos é o que nos dizem gregos e romanos, que falam de uma gente mais ou menos selvagem, que tinha uma relação muito próxima da terra”, diz Fabião. O filósofo e geógrafo grego Estrabão (c. 63 a.C. – 24), por exemplo, faz referência ao temperamento guerreiro das populações, desorganizadas a combater, mas rápidas a reagir a ataques e a lançar emboscadas ao inimigo. “Estrabão fala de uma quase guerrilha, que conhece bem o terreno e que é capaz de surpreender.” E fala também de populações simples, que bebem cerveja em vez de
vinho, comem pão de bolota e usam manteiga e não azeite quando cozinham.

Os relatos mais pormenorizados sobre Viriato, o mítico herói da resistência indígena contra os ocupantes, também se devem a um grego, Diodoro da Sicília (c. 90 a.C. – a 30 a.C.), que o descreve como um chefe justo, corajoso, sóbrio e amado pelos seus homens, mas que acaba assassinado por três dos seus colaboradores mais próximos, graças a um suborno de Roma. “Este Viriato é uma construção filosófica que tem muito pouco a ver com a figura histórica, de que não se sabe praticamente nada, a não ser que era um líder tribal que fez frente aos romanos”, diz Carlos Fabião. “Este herói é um produto da cultura clássica, um defensor da pátria – aqui e em Espanha, é preciso não esquecer que Viriato não é um exclusivo português – antes de ela existir. É uma construção absolutamente anacrónica.”

Verdadeiro ou não, o que sabemos ou julgamos saber dos lusitanos tem muito a ver com esta narrativa ficcional, a de um Viriato que faz parte do panteão dos heróis que combateram Roma. O que a exposição do museu de Arqueologia nos mostra é uma Lusitânia que é produto não do confronto, mas da integração, traçando o perfil de um território que, mesmo depois de conquistado, manteve boa parte da sua organização social, dos seus hábitos e até dos seus deuses.

“Passada a fase inicial do conflito, este território passa a fazer naturalmente parte do império, que é por definição inclusivo.” As elites locais, “indígenas”, revêem-se no modelo romano, que se baseia numa primeira fase no autogoverno, explica Fabião. Quem mandava, sublinha, continua a mandar, mas passa a fazê-lo em nome de Roma. “Nenhum império duraria o que o romano durou se se apoiasse apenas no confronto. Nesta província, como nas outras, há integração, aculturação.”

A Lusitânia, lembra por sua vez o director do museu de Mérida, é um conceito amplo – tem tanto de cultura como de geografia e para o compreender é preciso “olhar para os objectos, para os monumentos, e ouvir o que eles dizem”.

Nesta exposição, os objectos são esculturas de imperadores divinizados e bustos-retrato de olhar melancólico; são falcatas e espadas, taças de prata amalgamadas que alguém tentou esconder do inimigo e jarros de vidro delicado. São inscrições em que uma mulher homenageia o seu marido e os seus dois filhos mortos e placas em que se festeja a doação de um relógio de sol. São pactos de hospitalidade, lápides que referem um oculista de Córdova e marcos miliários, braceletes de prata dourada e fragmentos de estátuas equestres, moedas e placas de bronze em que um povo lusitano se dá por vencido.

 

Na vanguarda

Estes exemplares de cultura material, acrescenta Álvarez Martínez, atestam a “fusão” entre o que os romanos encontraram e o que trouxeram para a Península Ibérica, em inscrições como a recuperada em Arronches, no Nordeste alentejano, no final da década de 1990, uma das primeiras peças com que o visitante do MNA se cruzará, e um dos seis únicos textos conhecidos redigidos em lusitano.

“Os caracteres são latinos, mas a língua é lusitana. É um exemplo perfeito de uma mistura, de uma convivência”, diz este arqueólogo que dirige o museu de Mérida. A lápide, cujo texto está traduzido para português contemporâneo, à semelhança das restantes inscrições da exposição, regista uma série de sacrifícios ou oferendas feitas a divindades locais. “Primeiro os romanos subjugam, mas depois instalam-se e aceitam os costumes, que passam a conviver com os seus. Há crianças que continuam a ter os mesmos nomes pré-romanos, mulheres que se vestem e penteiam como sempre se vestiram e pentearam, sem copiar nada de Roma”, acrescenta Álvarez Martínez, que se define como um “lusitano convicto”, lembrando que foram precisos 200 anos para que os romanos dessem este território por conquistado. Porquê tanto tempo? A topografia difícil, sobretudo no Norte interior, a falta de interesse estratégico em parte do território – as atenções concentravam-se no Sul da península e nos seus minérios – e as guerras civis em Roma, que afectam a alocação de recursos militares, explicam, em boa parte, a demora, diz o arqueólogo Carlos Fabião.

“Eles demoram a tomar conta do território, mas quando o fazem romanizam-no rapidamente, construindo um rede de cidades segundo o modelo mediterrânico e resolvendo assim o problema da pressão demográfica que se colocava.” Antes dos romanos a Península Ibérica já tinha cidades, lembra este professor da Faculdade de Letras, mas não com a estrutura e a dimensão que vieram a impor. Mérida, lembra, é construída para ser a capital, de raiz, como a Brasília do século XX, e Olisipo, o nome que davam a Lisboa, transforma-se por completo para ser o porto oceânico de Augusta Emerita.

“Eles constroem ou redimensionam uma série de cidades pela província, com valor estratégico por estarem junto a minas, ao mar e aos rios Tejo, Sado e Guadiana”, precisa. Na exposição, pode ver-se até onde ia a sua organização e a complexidade das estruturas urbanas nesta província do império em fragmentos de canos de chumbo para o sistema de abastecimento de águas com a marca de Augusta Emerita, tal como hoje podemos encontrar a da EPAL nas condutas de Lisboa.

“No século IV a Lusitânia está na vanguarda do mundo”, assegura o director de Mérida, mencionando as explorações mineiras, a estrutura das cidades e a qualidade da arte que aqui se produzia. “No império as elites circulam muito e isso faz com que os costumes, mas também a arquitectura e as actividades económicas se contaminem”, acrescenta Álvarez Martínez. Fabião não é tão entusiasta em relação ao progresso da Lusitânia, mas lembra que a transformação que traz é “colossal”. Isto porque, sublinha, enquanto primeiro império global, o romano é, por definição, um espaço de inovação, que a história terá dificuldade em acompanhar durante muitos séculos. E para ilustrar esta posição vai buscar dois dados muito concretos: “No século I, Roma tinha já cerca de um milhão de habitantes. Para que uma cidade europeia voltasse a ter este peso demográfico, foi preciso esperar pela Londres do século XVIII. Igualmente impressionante é a concentração de metais pesados na atmosfera – os estudos mais recentes mostram que os valores registados entre os séculos I e III do império romano só voltam a ser igualados na Europa a partir do século XIX, com a revolução industrial.” Os minérios – sobretudo cobre, estanho, chumbo, prata e ouro – são a grande exportação da Lusitânia, a par, um pouco mais tarde, dos preparados de peixe, que tinham em Tróia o maior centro de produção do império.

 

Uma lei para as minas

É precisamente à exploração mineira que se refere uma das peças mais curiosas desta Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos. Trata-se da Tábua de Vipasca II (ano 117-138), um excerto de legislação que regula a extracção de minerais, encontrado em Aljustrel, Beja, com indicações muito precisas em relação às obrigações fiscais, aos deveres do proprietário e às sanções a aplicar a todos os escravos e homens livres que ousassem infringir as regras estabelecidas na província.

“Pela leitura desta lei ficamos a saber que, tal como hoje, as riquezas do subsolo pertenciam ao Estado e que a exploração destes recursos também era feita sob concessão. Sabemos até como funcionava a povoação junto às minas, o que dizia o contrato de arrendamento das termas, que preços se deviam praticar e que funções tinha o mestre-escola”, enuncia Carlos Fabião, garantindo que já naquela altura (século II), “a fiscalidade não dormia”.

Na mesma sala em que está esta legislação, pode ver-se também um sarcófago com as estações do ano representadas, do Museu Soares dos Reis, no Porto, restaurado para a exposição, um busto-retrato e ânforas de barro que transportariam peixe salgado.

“A exportação de peixe e sal é uma das singularidades da Lusitânia, a que se junta a sua ligação ao Atlântico”, explica António Carvalho, defendendo que nesta província se encontra um mar que os romanos dominam – o seu Mare Nostrum, o Mediterrâneo – com um Atlântico que gostariam de controlar.

“Com Augusto [63 a.C. – 14] os romanos vêm para ficar.” Imperador habituado à guerra, Augusto era sobretudo um homem de paz, diz o director do MNA, que manda o seu genro fundar Mérida transformando em colonos os veteranos da 5.ª e da 10.ª legiões, que lhe são muito próximas. “É verdade que há membros da elite romana que são mandados para a Lusitânia como se fossem mandados para o degredo, de castigo, mas não era assim que Augusto olhava para esta província. Os primeiros colonos estão entre os seus soldados preferidos, os seus dilectos, daí o nome de Augusta Emerita. É claro que estamos num espaço periférico, que não é tão atraente como a Gália, a Sicília ou a Mauritânia, mas é uma terra que não destoa do resto do império, de bons mármores e bons cavalos.”

Nota Carlos Fabião, no entanto, que a ideia de que nas lezírias do Tejo corriam alguns dos mais velozes cavalos do império não passa de um mito, algo que perdurou no tempo, acrescenta o director do museu de arqueologia, devido à existência de grandes hipódromos em Mérida e Lisboa (na zona do Rossio) e da carreira de sucesso de um auriga nascido na Lusitânia, Caio Apúlio Diócles, que ganhou quase 1500 das mais de 4000 corridas em que participou.  

“Também se dizia que aqui havia tritões e nereides e houve até uma embaixada de homens de Lisboa que foi contar isto a Roma, ao imperador Tibério. O que não é mito é que este território ajudou a aproximar o império do Atlântico”, conclui Carlos Fabião. A exposição do MNA, que em Julho deverá instalar-se no Museu Arqueológico Nacional, em Madrid, volta a abrir essa porta sobre o oceano, 2000 anos depois.

Fonte: Público, por Lucinda Canelas, 31/01/2016:https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/lusitania-uma-terra-no-fim-do-mundo-1721790

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