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NOTÍCIAS DE ARQUEOLOGIA

O Património é um bem comum... Preservá-lo só depende de cada um de nós...



Quarta-feira, 03.02.16

Resolvido "um dos maiores mistérios" da antiga Jerusalém

Há mais de um século que o local exato de Acra intrigava os arqueólogos

Especialistas israelitas anunciaram esta terça-feira ter resolvido "um dos maiores mistérios arqueológicos de Jerusalém" ao descobrirem uma antiga cidadela grega, Acra, debaixo de um parque de estacionamento.

Há mais de um século que o local exato de Acra intrigava os arqueólogos. A fortaleza foi mandada construir pelo imperador selêucida Antíoco IV Epifânio (215-164 aC) para controlar Jerusalém e o seu antigo templo judeu.

O templo foi arrasado pelos romanos no ano 70 (dC) e no local foram construídos, séculos depois, dois locais sagrados para os muçulmanos, o Domo da Rocha e a mesquita Al-Aqsa (na chamada Esplanada das Mesquitas).

O local é conhecido pelos muçulmanos como o Nobre Santuário e pelos judeus como Monte do Templo e é sagrado para ambos, sendo hoje um local de conflitos frequentes.

"Os investigadores, com a Autoridade de Antiguidades de Israel, acreditam que encontraram os restos da fortaleza... nas escavações do parque de estacionamento Givati na Cidade de David", referem as autoridades, numa referência a um local arqueológico situado no bairro palestiniano de Silwan, na Jerusalém oriental ocupada (reivindicada pela Autoridade Nacional Palestiniana)

"As escavações em Givati continuam a descobrir numerosos artefactos de mais de 10 culturas antigas diferentes da história de Jerusalém", acrescentou a fonte.

A cidadela é mencionada tanto no Livro dos Macabeus (sobre as lutas contra os soberanos selêucidas) como nos escritos do historiador Flávio Josefo, no século primeiro antes de Cristo, mas a sua localização exata não era conhecida até hoje.

As escavações permitiram descobrir uma parte do muro da cidadela e uma base de uma torre de "dimensões impressionantes", disseram as autoridades, acrescentando que a descoberta vai permitir reconstruir o "layout" (plano) da cidade, como era há dois mil anos.

As defesas da fortificação resistiram a todas as tentativas para a conquistar até que foi tomada pelo líder judeu Simão Macabeu, no ano 141 (aC), após um longo cerco que deixou a guarnição grega sem comida.

Antíoco é lembrado na tradição judaica como o vilão do feriado de Hanukkah (festa judaica também conhecida como festival das luzes), que por ter banido ritos religiosos judeus levou à revolta dos macabeus.

Fonte: (03-11-2015): http://www.dn.pt/sociedade/interior/resolvido-um-dos-maiores-misterios-de-jerusalem-4868793.html

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por noticiasdearqueologia às 08:58

Quarta-feira, 03.02.16

Tesouros da arqueologia são encontrados na região da Leopoldina

Foto: Divulgação/Governo do Rio

Em 2013, cerca de 220 mil artefatos foram encontrados pela equipe de arqueologia contratada pelo Consórcio Linha 4 Sul, localizado na Leopoldina, no Centro do Rio de Janeiro. No local, hoje estão estocadas as aduelas, anéis de concreto que formam os túneis entre Ipanema e Gávea.

O material ficou armazenado em dois depósitos grandes. Todos os dias, os sacos são abertos, os objetos passam por triagem, são limpos e colocados para secar. Estando em pedaços são consolidados em peças inteiras ou o mais próximo disso. Depois, os artefatos são tombados (registrados) e identificados de acordo com o artefato e o estilo.

 

Peças de 3 mil anos

Deste trabalho, foram identificados cerca de 50 artefatos de pedra e mais de 700 conchas características da Pré-História. São peças de 3 a 4 mil anos atrás, do período quando os paleoindios, que circulavam pelas terras ao redor da Baía de Guanabara, eram caçadores-pescadores, coletores e nômades.

Todo o trabalho é coordenado pelo Governo do Estado e o Consórcio Linha 4 Sul, e tem a fiscalização federal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e municipal do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

Fonte: 26-01-2016: http://www.mancheteonline.com.br/tesouros-da-arqueologia-sao-encontrados-na-regiao-da-leopoldina/

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por noticiasdearqueologia às 08:56

Quarta-feira, 03.02.16

Crónicas do castelo de S. JORGE

Um dia, a terra tremeu em Lisboa. Igrejas foram rasgadas ao meio, fornos foram destruídos e a morte lavrou na cidade. 

Numa parede do castelo, ficou escondida a memória de uma notícia funesta pelo traço de um escrivão.

O MRM permitiu ao especialista Bernardo Sá Nogueira retirar dúvidas na leitura da inscrição principal, interrompida nas duas primeiras linhas pela fragmentação do reboco.

Por defeito ou feitio, a maior parte dos arqueólogos costuma caminhar com os olhos postos no chão, como se procurasse ininterruptamente vestígios sugestivos de outras ocupações do território. Num dia do Verão passado, sucedeu o inverso a Carlos Fabião. Durante uma visita de lazer ao Castelo de São Jorge, o arqueólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa detectou a partir do solo a sugestão de uma inscrição na parede da Torre do Paço, a cerca de quatro metros de altura.

De um certo ângulo e com uma certa exposição luminosa, procurou tirar a questão a limpo, não fosse a luz solar pregar-lhe uma ilusão óptica. Fabião conhecia bem este espaço. Cresceu na mesma freguesia onde o castelo está implantado e passou parte da infância a explorar os cantos e recantos do monumento, fugindo dos legionários que então zelavam pelo castelo e que impediam a visita de crianças não acompanhadas. “Cheguei a sair daqui literalmente transportado pela orelha”, brinca. Mesmo assim, não assimilou de imediato a importância do achado. “Imaginei que, se fosse uma inscrição, já teria sido detectada, estudada e eventualmente publicada em artigo que eu não conhecesse”, conta. No entanto, quanto mais pesquisava, mais perplexo ficava: ninguém parecia ter reparado num texto gravado numa parede do monumento mais visitado do país, embora outro edifício tenha estado ali adossado durante alguns séculos, tapando a inscrição.

Alertada a unidade de Património Cultural do Castelo, coordenada por Susana Serra, a novidade foi acolhida com entusiasmo. “Não é todos os dias que se descobre uma novidade num monumento com ocupação continuada desde a Idade do Ferro”, diz a historiadora. Em breve, um andaime foi montado e encostado à parede, permitindo aos investigadores encostarem literalmente os olhos ao texto. E as surpresas não cessaram: a inscrição ocupava um espaço considerável de cerca de quatro metros de largura. Incluía símbolos e caracteres, bem como a sugestão de três brasões. Agregava símbolos fálicos e possíveis sinais de tabelião em forma de estrela. E texto, claro. Cuidadosamente gravadas a estilete numa camada de reboco, as linhas de texto apresentavam-se como uma mensagem da Idade Média. Faltava, porém, quem a conseguisse ler e interpretar. Afinal, o que nos diziam os ocupantes do castelo do século XIV?

“Tenham respeito pelos escrivães”, brinca o meu interlocutor enquanto subimos o andaime num dia gloriosamente límpido de Novembro. “Eles pertenciam à elite da sociedade lisboeta dos séculos XII a XV.” Bernardo Sá Nogueira, o autor destas palavras, é um especialista em paleografia portuguesa e história administrativa medieval em Portugal. Quando fala, imprime tanta vivacidade gestual e linguística ao que transmite que, por momentos, somos levados a pensar que a vida de um tabelião ou escrivão do século XIV era de facto repleta de aventuras.

Bernardo Sá Nogueira foi o especialista contactado pelo Castelo de São Jorge para tentar ler as inscrições. Habituado a descodificar manuscritos medievais, escreveu uma dissertação de mestrado sobre um tabelião que trabalhara em Lisboa entre 1302 e 1332 e uma tese de doutoramento sobre as origens do tabelionado no país. Era claramente o homem certo na altura certa. 

Com a presteza de um especialista em criptografia, procurou isolar letras que se destacassem na inscrição principal. Identificou os signos correspondentes ao ano “noventa e quatro” logo na primeira linha, uma pista importante para definir o intervalo provável de tempo para a produção da inscrição. “Portugal foi o último reino ibérico que abandonou o sistema de contagem dos anos conhecido como ‘era hispânica’ e só o fez em 1422”, explica. Durante muitos anos aceite como contagem a partir da conquista romana da Península Ibérica, sabe-se hoje que data da Alta Idade Média.

 Logo a seguir, os olhos de Bernardo Sá Nogueira identificaram outro conjunto significativo de símbolos, redigidos no cursivo típico da Idade Média portuguesa. Palavra a palavra, mesmo com abreviaturas, o especialista identificou a referência ao dia de São Bartolomeu e a expressão “tremeu a terra”. “Abandonei o local com essa informação a bailar na minha mente e, durante o trajecto de carro para casa, recebi um telefonema entusiasmado de João Almeida [arqueólogo responsável do Serviço Educativo do Castelo de São Jorge].” Lera na Internet que um dos grandes sismos da história lisboeta ocorrera no dia 24 de Agosto de 1356. Precisamente no dia de São Bartolomeu. Não acontece muitas vezes na vida de um historiador, mas desta vez sucedeu: “Assimilei a informação: tínhamos acabado de ler na parede do Castelo de São Jorge a notícia de um terramoto.”

Há cerca de uma década, a historiadora Marisa Costa e o investigador João Fonseca, do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção, apresentaram num congresso de sismologia o resultado de uma análise intensiva às fontes documentais sobre eventos sísmicos no período medieval. A sua pesquisa ganha agora particular actualidade. O evento de 1356 figura, naturalmente, entre os documentos produzidos no século XIV, dando conta de estragos relevantes em Lisboa, Alcobaça, Setúbal, Silves e no resto do Algarve. Sentido numa quarta-feira antes do pôr do Sol, o sismo é referido por exemplo noLivro da Noa, que pertenceu à biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, num trecho dramático: “(…) tremeu a terra e per tal guissa que as ca[m]paas se tangiam nos campanarios de seu e muytas casas e torres e castelos que cayron e se abrirom que ficarom pera cai[r]. Per todalas partes do mundo foy este tremor. E omees que stavam en fortes casas fugiam delas com medo que avian e Esto foy ante que se posesse o Sol durou per spa[ç]o du[m]a quarta d’ora do dia.”

Lemos a passagem do livro medieval e imaginamos o pandemónio na cidade, então concentrada nos bairros históricos em torno do castelo. Um acto lavrado anos depois, em 30 de Maio de 1361, na chancelaria de Dom Pedro I (1357-1367), o rei que sucedeu a Dom Afonso IV, lembra também que os quatro fornos da cidade de Lisboa que coziam pão foram destruídos. Mesmo em Sevilha, as grandes maçãs de bronze do campanário da catedral caíram e partiram-se, o que sugere a escala ibérica do fenómeno e a impressão assustadora que o mesmo gerou nas populações.

 

A capela real que Dom Afonso IV (1325-1357) mandara construir para ali ser sepultado com Dona Beatriz foi rasgada pela violência dos abalos e esse mau augúrio é particularmente sugestivo. O rei estava em fim de trajecto. Depois do sismo, sobreviveu pouco mais de nove meses e foi sepultado na Sé de Lisboa. Bernardo Sá Nogueira entende que esse aspecto não foi suficientemente valorizado pelos historiadores: quase todos os antecessores reais desde Dom Afonso II foram sepultados em mosteiros da Ordem de Cister: Dom Afonso II e Dom Afonso III descansaram em Alcobaça; Dom Sancho II morreu no exílio, sem possibilidade de escolher o local, jazendo na Sé de Toledo. Dom Dinis criou um panteão para si, mandando construir o Mosteiro de Odivelas. E Dom Pedro I, filho de Dom Afonso IV, escolheu também o Mosteiro de Alcobaça. “Só Afonso IV fugiu a esta regra. Terá o sismo influenciado a vontade régia, ao destruir a capela previamente erigida a mando do rei para sua sepultura?”, pergunta Bernardo Sá Nogueira.

 “O grande desafio da equipa que gere o castelo é contrariar a acusação permanente de que não há autenticidade neste monumento”, comenta Teresa Oliveira, responsável pela gestão do monumento desde 2004. “Em 2015, ultrapassámos pela primeira vez a barreira do milhão e meio de visitantes num só ano. Tivemos dias com oito mil visitantes e isso significa que o turista encontra inspiração e prazer no castelo. Ao mesmo tempo, também temos noção de que parte da comunidade académica interpreta este espaço em função da intervenção programática e impositiva da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) na década de 1940. E este castelo, como quase todos os outros, é entendido como um monumento muito ‘mexido’ e com pouco interesse.”

Entre 1938 e 1940, a DGEMN promoveu no Castelo de São Jorge uma intervenção radical de consolidação e interpretação. Augusto Vieira da Silva, um engenheiro militar que dedicou a maior fatia da sua vida profissional ao castelo, resumiu mais tarde o programa de reconstrução em que estivera envolvido, definindo-o como um esforço de restituição “à cidade, consertado e alegre, [d]o seu mais antigo e venerando monumento, evocador de eras passadas e factos ocorridos em Lisboa”. Dentro desse espírito, a DGEMN procedeu a terraplenagens, baixou drasticamente cotas de terreno e destruiu áreas construídas posteriormente à implantação do castelo, perseguindo um ideário nacionalista e romantizado.

 

Para piorar o cenário, a pressão para incluir o castelo no programa das comemorações do oitavo centenário da fundação da nacionalidade acelerou intervenções que deveriam ter sido cuidadosas. “Não há dúvida de que se perdeu um volume gigantesco de informação”, admite Susana Serra, que hoje conhece o castelo palmo a palmo, após onze anos de trabalho no terreno. “Em muitos monumentos, a etapa fundamental para conservação do património é o entendimento das fases de construção. Aqui, infelizmente, é a percepção do que foi destruído. Mas isso não significa que todo o castelo seja produto do século XX.”

Para Carlos Fabião, para lá do mito sobre o “fabrico” do monumento, existiu outro factor dissuasor: há uma obra fundamental de análise do castelo redigida por Vieira da Silva em 1898 e republicada em 1937, antes portanto dos trabalhos de fundo e nunca continuada. “A segunda edição é praticamente a mesma do século XIX. Isso sugere que ninguém olhou para este monumento durante o século XX, como se o estudo tivesse terminado”, resume. “Hoje percebemos o valor histórico de testemunhos como este, até pela sua raridade: em Portugal, só se conhecem inscrições desta natureza no castelo de Arraiolos e mesmo essa descoberta data de 2010.”

No Verão de 2015, Carmen Barceló, catedrática da Universidade de Barcelona, deu um contributo inesperado para o conhecimento do castelo. Uma lápide funerária romana, encontrada em 1939 nas ruínas do castelo árabe e exposta então na Sala Ogival do Castelo e depois no Museu da Cidade de Lisboa, foi agora interpretada. Por baixo do epitáfio romano já lido por epigrafistas portugueses, a investigadora espanhola detectou e leu uma mensagem em árabe sobre o início da alcáçova de Lisboa em época de Hisam II, o último grande califa de Córdova e o líder que ordenara o saque de Santiago de Compostela. Barceló remeteu a data de produção da epígrafe para 985 d.C. Por outras palavras, a inscrição sugere uma importante etapa de construção de época islâmica no castelo anterior em quase um século ao que as escavações de há duas décadas na mesma área tinham proposto. “A ciência faz-se assim”, resume Susana Serra. “Com novos dados e hipóteses. Mas, para isso, é preciso estudar este monumento.”

 

A ocupação e extensão do Paço Real, o castelejo, a Torre do Tombo original onde operavam guardas-mores como Damião de Góis e a torre onde hoje funciona a popular Câmara Escura, que está quase assente em caboucos, constituem focos de pesquisa possível. “As áreas arqueológicas em cotas inferiores ao nível islâmico não foram mexidas pela DGEMN e são igualmente sugestivas”, acrescenta Susana Serra. E há ainda a biblioteca de pedra, o inventário que a equipa de Património Cultural do Castelo tem em curso, com apoio da geóloga Madalena Rodrigues, da conservadora-restauradora Mafalda Alegre e da documentalista Daniela Sebastião, procurando mapear as patologias e os materiais utilizados nas sucessivas fases de construção do monumento. O Laboratório HERCULES, em Évora, ajudou a caracterizar a argamassa, a cal e as areias usadas no reboco das inscrições. “A partir de agora, sempre que encontrarmos materiais semelhantes, podemos deduzir com mais segurança que foram aplicados em época semelhante à da Torre do Paço”, explica Madalena Rodrigues.  O que nos leva de novo às inscrições e àquilo que elas revelam sobre a sociedade do século XIV.

O passo seguinte deste projecto é de natureza tecnológica. Hugo Pires e Luís Bravo, da empresa Superfície, foram convidados a testar no Castelo de São Jorge o seu processo de digitalização tridimensional e imagens de síntese aplicadas a arte rupestre, a epigrafia e agora a suporte paleográfico, um registo diferente, pois a flexibilidade da superfície não garante tanta durabilidade. “O método torna mais seguro o trabalho de interpretação dos especialistas, não é intrusivo e permite analisar o suporte longe do sítio arqueológico”, resume Hugo Pires. É precisamente isso que fazemos hoje em frente de um computador.

Manejando uma caneta digital por cima das imagens de síntese geradas pela equipa da Superfície, Bernardo Sá Nogueira decalca cada signo. Não é propriamente um estilete, mas o especialista em história medieval assegura que não é muito diferente da escrita com a pena. Enquanto decalca com a paciência de Job, emendando e repetindo gestos precipitados, explica as conclusões da sua interpretação. “O autor destas linhas tinha de ser um escrivão habituado a escrever sobre tabuinhas de cera e com muito treino manuscrito”, diz. “Nota-se nas abreviaturas usadas, na fluidez das palavras, nas fórmulas escritas muito próximas das que se usam nos documentos e até na guarda dentro da qual o autor assina e encerra o trabalho.” Os notários (então chamados tabeliães) eram a fina-flor dos escrivães. Estavam juridicamente capacitados para redigir documentos e eram eles que escrituravam as actas dos processos judiciais. “Pense neles como os guardiões da memória escrita numa época em que não havia impressão e os livros eram escassos e escritos à mão”, explica Sá Nogueira. “Eram uma mini Torre do Tombo, uma classe poderosa.” Talvez um dia se descubra, no espólio de documentos medievais, um manuscrito redigido pelo mesmo homem que gravou a estilete a mensagem no castelo, fechando assim o círculo improvável da história.

Em que momento terá sido produzida a inscrição e com que objectivos? Carlos Fabião hesita quando aborda a questão da motivação. “Talvez nunca se saiba.” “Por que motivo alguém escreve uma memória futura na parede? Para lembrar um evento definidor? Para honrar um rei?” Ou para assinalar a conclusão do restauro de uma torre eventualmente sacudida por abalos sísmicos ou por conflito militar? São mistérios insondáveis.

A data de produção, porém, não é tão fugaz. Baseando-se no tipo de letra, Sá Nogueira acredita que ela poderá ter sido produzida no reinado fernandino (1367-1383). Depois do sismo de 1356, Dom Afonso IV já só reinou mais alguns meses. Seguiu-se-lhe Dom Pedro, que tomou em mãos a vingança da morte de Dona Inês de Castro e perseguiu os responsáveis. “Segundo a lenda, ao subir ao trono, Dom Pedro coroou o cadáver da rainha e obrigou a corte a beijar-lhe a mão. Foi um gesto que agitou a imaginação dos portugueses. O seu reinado constituiu um corte radical com a tradição do pai. Não o imagino a patrocinar uma inscrição que honrasse um momento no reinado afonsino.” 

Resta portanto Dom Fernando I. “A caligrafia é compatível”, defende. “E há o pormenor económico: o restauro do castelo danificado representava um enorme esforço financeiro para a Coroa e justifica-se melhor face a um perigo.” Implicaria certamente uma razão forte: “Não a vejo no reinado de Dom Pedro e vejo-a por três vezes no de Dom Fernando com as três guerras com Castela”, diz. 

Há mais símbolos na cartela da Torre do Paço e os trabalhos prosseguem. O Instituto Português de Heráldica já visitou o espaço, através do seu presidente Miguel Seixas, e estuda agora os brasões parciais ali gravados. Talvez outras palavras inscritas ajudem a compreender melhor o sentido e intenção dos homens que, no século XIV, subiram a alguns metros de altura, aproveitaram o reboco fresco e ali deixaram a memória de um evento que certamente marcara a sua vida.

Ao descer do andaime em mais uma visita ao local, Bernardo Sá Nogueira não resiste a lembrar de memória uma passagem escrita por Frei Luís de Sousa nos Anais de El Rei Dom João III, curiosamente também um texto que esteve escondido durante dois séculos até Alexandre Herculano o reabilitar: "São os reis umas paredes brancas em que cada um se atreve a escrever o que quer." Em poucos locais do país, esta frase faria mais sentido do que na Torre do Paço do Castelo de São Jorge.

Fonte: Texto de Gonçalo Pereira: http://www.nationalgeographic.pt/index.php/ng-revista/585-castelo-sao-jorge

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por noticiasdearqueologia às 08:49

Segunda-feira, 01.02.16

Arqueólogos desvendam mistério de vilarejo pré-histórico na Inglaterra

  • Andrew Testa/The New York Times

Ninguém sabe por que um incêndio catastrófico destruiu o pequeno povoado construído ao lado de um canal do rio, incinerando as casas de várias famílias e lançando madeira em chamas pântano abaixo. Pode ter sido um acidente, um ataque de inimigos ou até mesmo algum tipo de ritual.

No entanto, respostas estão surgindo, pedaço por pedaço, cerca de 3 mil anos mais tarde.

O sítio arqueológico Must Farm, em Cambridgeshire, é considerado tão rico que tem sido comparado a Pompeia, a cidade romana enterrada pela erupção do Monte Vesúvio em 79 dC.

Must Farm não se parece com uma ruína pitoresca, muito menos uma fazenda. Ela ocupa um terreno enlameado, com turbinas eólicas e chaminés se erguendo ao longe. E os coletes amarelos fluorescentes usadas pelas pessoas envolvidas na escavação fazem com que ele pareça um canteiro de obras.

Mas seus tesouros chamam atenção. Na terra encharcada, apareceram uma tigela de madeira carbonizada e um vaso de cerâmica na semana passada, perto do esqueleto de uma vaca, presumivelmente abatida para fornecer alimento. A poucos passos de distância, a forma inconfundível de um crânio humano se projetava em meio à lama na qual esteve enterrado desde a Idade do Bronze.

"A analogia com Pompeia, da qual vivem falando, é verdadeira nesse local, mas também é falsa", disse Mark Knight, diretor sítio arqueológico. "Não há nenhum vulcão nesta paisagem; este não foi um desastre natural. Mas um acontecimento, como um grande incêndio, basicamente pegou a vida cotidiana, jogou-a no nosso canal, e selou-a lá para nós escavarmos."

Para Knight e sua equipe da Unidade de Arqueologia da Universidade de Cambridge, esta é uma experiência estimulante, e às vezes inquietante.

"Isso não parece arqueologia", disse ele, "parece uma intromissão. Nós chegamos depois de alguma tragédia e conseguimos analisar os restos, e ter algum indício do que acontecia neste assentamento há 3 mil anos."

Dessa forma a escavação parece tanto uma investigação criminal moderna quanto uma exploração da pré-história. Entre aqueles que trabalham aqui, há um especialista forense em incêndio, que espera conseguir determinar onde as chamas começaram e como elas se espalharam.

O fogo destruiu pelo menos duas casas redondas, que eram construídas sobre palafitas de madeira acima de um canal conectado ao rio Nene, e que eram cercados por algum tipo de perímetro.

Como em qualquer boa história de detetive, as pistas fazem a narrativa avançar: uma tigela, com uma colher de madeira e uma refeição inacabada, sugere que quem vivia aqui saiu com pressa. O crânio indica que talvez nem todo mundo tenha sido rápido o suficiente.

Arqueólogos conhecem o local há algum tempo e debatiam o que fazer com ele há mais de uma década. Finalmente, uma decisão foi tomada para escavar e remover os artefatos porque eles corriam o risco de se deteriorar.

Isso deixou uma tarefa enorme e emocionante para os que escavam em temperaturas congelantes, sob uma cobertura temporária. Uma equipe de cerca de uma dúzia de pessoas vem trabalhando desde setembro e o projeto deve terminar em abril, embora esse prazo pareça ambicioso.

Para os arqueólogos, que geralmente trabalham em projetos menores e mais limitados, a perspectiva de conseguir um retrato único da vida cotidiana na Idade do Bronze é excitante.

"É uma janela surpreendente para o outro lado", disse Iona Robinson, supervisora do projeto e pesquisadora da Unidade de Arqueologia da Cambridge. "Nós lidamos com sombras normalmente, lidamos com as ausências, estamos tão acostumados a trabalhar com 50% das evidências. E agora, neste local, temos uma janela fantástica para ver o quadro completo."

Durante a Idade do Bronze, neste ambiente pantanoso, os cursos de água eram o único meio de transporte e comunicação (nove barcos de madeira antigos foram descobertos perto daqui, em 2011), então o local talvez fosse uma espécie encruzilhada de rotas. Ele pode, na verdade, ser um exemplo típico de outros assentamentos, ainda não descobertos, sob os pântanos ingleses.

A partir dos itens recuperados até agora, parece que os homens e mulheres que viviam aqui estavam na ponta de sua sociedade e estabeleceram-se acima do rio por causa do comércio ou outras oportunidades. Isso sugere que o local era um eixo movimentado daquele mundo, e não um posto na periferia dele.

A comunidade aqui tinha boa parte do que estava disponível na Inglaterra pré-histórica: têxteis, cerâmica, lanças e uma ferramenta em forma de foice bem trabalhada. Foram encontradas contas da Europa Central, além de potes, como os descobertos no norte da França e espadas semelhantes às do norte da Espanha.

Tudo isso torna a questão de como esta comunidade encontrou o seu fim dramático ainda mais intrigante. Uma possibilidade é um incêndio acidental. Outra é que ela tenha sido destruída deliberadamente por seus ocupantes, quer como um ato ritual, ou porque as estruturas tinham servido o seu propósito e estavam caindo aos pedaços. No entanto, o fato de que tantas posses tenham sido deixadas depõe contra isso.

A terceira possibilidade é um ataque de vizinhos hostis, e o crânio é o primeiro sinal, de acordo com Knight, de que as pessoas podem ter morrido violentamente aqui.

Ele adverte que em algum momento da Idade do Bronze os britânicos guardavam os crânios de seus ancestrais, então é possível que ele fosse uma relíquia. Mas logo a escavação vai mostrar se o crânio está ligado a um esqueleto.

Essa ideia pode evocar imagens de Pompeia, e a forma como ela preservou os últimos momentos desesperados de seus moradores, mas Must Farm nunca foi destinado a se tornar um sítio arqueológico permanente.

De fato, solucionar o mistério do que aconteceu é uma corrida contra o tempo, e só há uma chance de acertar.

Talvez faça sentido que Must Farm se assemelhe a um canteiro de obras, porque uma vez que os artefatos forem removidos, a escavação será preenchida com terra e tijolo quebrado, e o local deste assentamento tão misterioso e antigo dará lugar a uma rodovia.
 Fonte: Stephen Castle, Em Whittlesey (Inglaterra), radutor: Eloise De Vylder:http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2016/01/31/arqueologos-desvendam-misterio-de-vilarejo-pre-historico-na-inglaterra.htm

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por noticiasdearqueologia às 11:29

Segunda-feira, 01.02.16

Lusitânia: Uma terra no fim do mundo

Exposição no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, recua dois mil anos para nos trazer uma província fundada pelo primeiro dos imperadores romanos, Augusto. Um território periférico que exportava minério e conservas de peixe, que o mito fez terra de nereides e cavalos velozes. Até 30 de Junho.

É através do olhar do outro, o invasor, que a conhecemos. Foram os gregos e depois os romanos, que a conquistaram passados 200 anos, que fizeram o retrato dos povos que ali encontraram. Dois milénios depois a Lusitânia continua a ser, nos livros, o extremo ocidental de um império que já não existe, finisterra que exportava minério e conservas de peixe, com uma porta aberta para o oceano.

Província que tinha em Mérida a sua capital – Augusta Emerita, assim se chamava, mandada construir em 25 a.C. pelo próprio Augusto, primeiro grande imperador romano – era vista como o fim do mundo conhecido. Periférica pela geografia, a Lusitânia foi fundada entre 16 e 13 a.C. e foi ganhando importância, primeiro por causa dos minérios do sul da Península Ibérica e depois, com a conquista da Britânia e o apoio às legiões nela envolvidas, como território em que o Mediterrâneo e o Atlântico se encontravam.

Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos, a exposição que acaba de ser inaugurada no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa, viaja até este território pouco conhecido do império romano, que ocupava grande parte de Portugal, entre o Douro e o Algarve, a actual Extremadura espanhola e uma pequena porção da Andaluzia.

Ao todo reúne 207 peças, provenientes de 14 instituições portuguesas e cinco espanholas, distribuídas por dez núcleos que procuram contar quase 700 anos da história desta península que hoje se vê dividida entre dois países e que, na Antiguidade, deveu aos romanos a sua unidade política, cultural e administrativa.

Mais do que uma exposição de arqueologia, diz António Carvalho, director do MNA, Lusitânia Romana é uma mostra de antiguidade clássica, em que a escultura assume um papel de relevo. “Dificilmente voltaremos a reunir num mesmo local peças tão importantes para tantas instituições”, sublinha o arqueólogo, fazendo referência à presença de vários “tesouros nacionais” portugueses e espanhóis, que prometem “fazer o retrato de um território singular sobre o qual se sabe ainda muito pouco”, quando comparado com outros que integraram aquele que foi o primeiro império global da história.

 

Herói construído

“A Lusitânia é uma construção romana – ela não existe antes como território único”, explica o arqueólogo Carlos Fabião, que divide o comissariado desta exposição que inaugurou no ano passado no Museu Nacional de Arte Romano de Mérida com o seu director, José María Álvarez Martínez, e com António Carvalho.

O que os romanos encontraram ao chegar foi uma multiplicidade de sociedades tribais, com os seus chefes, muito ligadas à natureza. É pelo menos este o retrato difundido, um retrato que, diz este professor da Faculdade de Letras de Lisboa, é preciso questionar. “Nós nunca sabemos como é que os lusitanos, os povos que aqui viviam, se viam, não temos acesso a uma auto-representação. O que deles conhecemos é o que nos dizem gregos e romanos, que falam de uma gente mais ou menos selvagem, que tinha uma relação muito próxima da terra”, diz Fabião. O filósofo e geógrafo grego Estrabão (c. 63 a.C. – 24), por exemplo, faz referência ao temperamento guerreiro das populações, desorganizadas a combater, mas rápidas a reagir a ataques e a lançar emboscadas ao inimigo. “Estrabão fala de uma quase guerrilha, que conhece bem o terreno e que é capaz de surpreender.” E fala também de populações simples, que bebem cerveja em vez de
vinho, comem pão de bolota e usam manteiga e não azeite quando cozinham.

Os relatos mais pormenorizados sobre Viriato, o mítico herói da resistência indígena contra os ocupantes, também se devem a um grego, Diodoro da Sicília (c. 90 a.C. – a 30 a.C.), que o descreve como um chefe justo, corajoso, sóbrio e amado pelos seus homens, mas que acaba assassinado por três dos seus colaboradores mais próximos, graças a um suborno de Roma. “Este Viriato é uma construção filosófica que tem muito pouco a ver com a figura histórica, de que não se sabe praticamente nada, a não ser que era um líder tribal que fez frente aos romanos”, diz Carlos Fabião. “Este herói é um produto da cultura clássica, um defensor da pátria – aqui e em Espanha, é preciso não esquecer que Viriato não é um exclusivo português – antes de ela existir. É uma construção absolutamente anacrónica.”

Verdadeiro ou não, o que sabemos ou julgamos saber dos lusitanos tem muito a ver com esta narrativa ficcional, a de um Viriato que faz parte do panteão dos heróis que combateram Roma. O que a exposição do museu de Arqueologia nos mostra é uma Lusitânia que é produto não do confronto, mas da integração, traçando o perfil de um território que, mesmo depois de conquistado, manteve boa parte da sua organização social, dos seus hábitos e até dos seus deuses.

“Passada a fase inicial do conflito, este território passa a fazer naturalmente parte do império, que é por definição inclusivo.” As elites locais, “indígenas”, revêem-se no modelo romano, que se baseia numa primeira fase no autogoverno, explica Fabião. Quem mandava, sublinha, continua a mandar, mas passa a fazê-lo em nome de Roma. “Nenhum império duraria o que o romano durou se se apoiasse apenas no confronto. Nesta província, como nas outras, há integração, aculturação.”

A Lusitânia, lembra por sua vez o director do museu de Mérida, é um conceito amplo – tem tanto de cultura como de geografia e para o compreender é preciso “olhar para os objectos, para os monumentos, e ouvir o que eles dizem”.

Nesta exposição, os objectos são esculturas de imperadores divinizados e bustos-retrato de olhar melancólico; são falcatas e espadas, taças de prata amalgamadas que alguém tentou esconder do inimigo e jarros de vidro delicado. São inscrições em que uma mulher homenageia o seu marido e os seus dois filhos mortos e placas em que se festeja a doação de um relógio de sol. São pactos de hospitalidade, lápides que referem um oculista de Córdova e marcos miliários, braceletes de prata dourada e fragmentos de estátuas equestres, moedas e placas de bronze em que um povo lusitano se dá por vencido.

 

Na vanguarda

Estes exemplares de cultura material, acrescenta Álvarez Martínez, atestam a “fusão” entre o que os romanos encontraram e o que trouxeram para a Península Ibérica, em inscrições como a recuperada em Arronches, no Nordeste alentejano, no final da década de 1990, uma das primeiras peças com que o visitante do MNA se cruzará, e um dos seis únicos textos conhecidos redigidos em lusitano.

“Os caracteres são latinos, mas a língua é lusitana. É um exemplo perfeito de uma mistura, de uma convivência”, diz este arqueólogo que dirige o museu de Mérida. A lápide, cujo texto está traduzido para português contemporâneo, à semelhança das restantes inscrições da exposição, regista uma série de sacrifícios ou oferendas feitas a divindades locais. “Primeiro os romanos subjugam, mas depois instalam-se e aceitam os costumes, que passam a conviver com os seus. Há crianças que continuam a ter os mesmos nomes pré-romanos, mulheres que se vestem e penteiam como sempre se vestiram e pentearam, sem copiar nada de Roma”, acrescenta Álvarez Martínez, que se define como um “lusitano convicto”, lembrando que foram precisos 200 anos para que os romanos dessem este território por conquistado. Porquê tanto tempo? A topografia difícil, sobretudo no Norte interior, a falta de interesse estratégico em parte do território – as atenções concentravam-se no Sul da península e nos seus minérios – e as guerras civis em Roma, que afectam a alocação de recursos militares, explicam, em boa parte, a demora, diz o arqueólogo Carlos Fabião.

“Eles demoram a tomar conta do território, mas quando o fazem romanizam-no rapidamente, construindo um rede de cidades segundo o modelo mediterrânico e resolvendo assim o problema da pressão demográfica que se colocava.” Antes dos romanos a Península Ibérica já tinha cidades, lembra este professor da Faculdade de Letras, mas não com a estrutura e a dimensão que vieram a impor. Mérida, lembra, é construída para ser a capital, de raiz, como a Brasília do século XX, e Olisipo, o nome que davam a Lisboa, transforma-se por completo para ser o porto oceânico de Augusta Emerita.

“Eles constroem ou redimensionam uma série de cidades pela província, com valor estratégico por estarem junto a minas, ao mar e aos rios Tejo, Sado e Guadiana”, precisa. Na exposição, pode ver-se até onde ia a sua organização e a complexidade das estruturas urbanas nesta província do império em fragmentos de canos de chumbo para o sistema de abastecimento de águas com a marca de Augusta Emerita, tal como hoje podemos encontrar a da EPAL nas condutas de Lisboa.

“No século IV a Lusitânia está na vanguarda do mundo”, assegura o director de Mérida, mencionando as explorações mineiras, a estrutura das cidades e a qualidade da arte que aqui se produzia. “No império as elites circulam muito e isso faz com que os costumes, mas também a arquitectura e as actividades económicas se contaminem”, acrescenta Álvarez Martínez. Fabião não é tão entusiasta em relação ao progresso da Lusitânia, mas lembra que a transformação que traz é “colossal”. Isto porque, sublinha, enquanto primeiro império global, o romano é, por definição, um espaço de inovação, que a história terá dificuldade em acompanhar durante muitos séculos. E para ilustrar esta posição vai buscar dois dados muito concretos: “No século I, Roma tinha já cerca de um milhão de habitantes. Para que uma cidade europeia voltasse a ter este peso demográfico, foi preciso esperar pela Londres do século XVIII. Igualmente impressionante é a concentração de metais pesados na atmosfera – os estudos mais recentes mostram que os valores registados entre os séculos I e III do império romano só voltam a ser igualados na Europa a partir do século XIX, com a revolução industrial.” Os minérios – sobretudo cobre, estanho, chumbo, prata e ouro – são a grande exportação da Lusitânia, a par, um pouco mais tarde, dos preparados de peixe, que tinham em Tróia o maior centro de produção do império.

 

Uma lei para as minas

É precisamente à exploração mineira que se refere uma das peças mais curiosas desta Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos. Trata-se da Tábua de Vipasca II (ano 117-138), um excerto de legislação que regula a extracção de minerais, encontrado em Aljustrel, Beja, com indicações muito precisas em relação às obrigações fiscais, aos deveres do proprietário e às sanções a aplicar a todos os escravos e homens livres que ousassem infringir as regras estabelecidas na província.

“Pela leitura desta lei ficamos a saber que, tal como hoje, as riquezas do subsolo pertenciam ao Estado e que a exploração destes recursos também era feita sob concessão. Sabemos até como funcionava a povoação junto às minas, o que dizia o contrato de arrendamento das termas, que preços se deviam praticar e que funções tinha o mestre-escola”, enuncia Carlos Fabião, garantindo que já naquela altura (século II), “a fiscalidade não dormia”.

Na mesma sala em que está esta legislação, pode ver-se também um sarcófago com as estações do ano representadas, do Museu Soares dos Reis, no Porto, restaurado para a exposição, um busto-retrato e ânforas de barro que transportariam peixe salgado.

“A exportação de peixe e sal é uma das singularidades da Lusitânia, a que se junta a sua ligação ao Atlântico”, explica António Carvalho, defendendo que nesta província se encontra um mar que os romanos dominam – o seu Mare Nostrum, o Mediterrâneo – com um Atlântico que gostariam de controlar.

“Com Augusto [63 a.C. – 14] os romanos vêm para ficar.” Imperador habituado à guerra, Augusto era sobretudo um homem de paz, diz o director do MNA, que manda o seu genro fundar Mérida transformando em colonos os veteranos da 5.ª e da 10.ª legiões, que lhe são muito próximas. “É verdade que há membros da elite romana que são mandados para a Lusitânia como se fossem mandados para o degredo, de castigo, mas não era assim que Augusto olhava para esta província. Os primeiros colonos estão entre os seus soldados preferidos, os seus dilectos, daí o nome de Augusta Emerita. É claro que estamos num espaço periférico, que não é tão atraente como a Gália, a Sicília ou a Mauritânia, mas é uma terra que não destoa do resto do império, de bons mármores e bons cavalos.”

Nota Carlos Fabião, no entanto, que a ideia de que nas lezírias do Tejo corriam alguns dos mais velozes cavalos do império não passa de um mito, algo que perdurou no tempo, acrescenta o director do museu de arqueologia, devido à existência de grandes hipódromos em Mérida e Lisboa (na zona do Rossio) e da carreira de sucesso de um auriga nascido na Lusitânia, Caio Apúlio Diócles, que ganhou quase 1500 das mais de 4000 corridas em que participou.  

“Também se dizia que aqui havia tritões e nereides e houve até uma embaixada de homens de Lisboa que foi contar isto a Roma, ao imperador Tibério. O que não é mito é que este território ajudou a aproximar o império do Atlântico”, conclui Carlos Fabião. A exposição do MNA, que em Julho deverá instalar-se no Museu Arqueológico Nacional, em Madrid, volta a abrir essa porta sobre o oceano, 2000 anos depois.

Fonte: Público, por Lucinda Canelas, 31/01/2016:https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/lusitania-uma-terra-no-fim-do-mundo-1721790

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por noticiasdearqueologia às 11:27


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